Mostrando postagens com marcador dor de barriga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dor de barriga. Mostrar todas as postagens

04/09/2014

TARTARUGA DE ESTIMAÇÃO


   Em volta da pracinha de Tabuí tem um monte de casas bem arrumadinhas, muitas pintadinhas de novo, telhado bonito e algumas com jardins bem cuidados. Fruto dos novos ventos que correm pela cidade, civilizando-se cada vez mais. Pois foi numa dessas casas, a da dona Manoela, que aconteceu o incidente.
   O Jerebão ia passando, de madrugada, indo pra casa, depois de ter saído do Bar do Copo Sujo. Nem preciso dizer do estado do Jereba após sair de um bar. E foi em frente à casa da dona Manoela que ele teve a terrível dor de barriga. Consequência do chouriço derrancado que comera lá no boteco do Bigode, como tira gosto. Ajeitou-se atrás da moita de jasmim e derramou o que tinha nas entranhas.    Depois de quase meia hora de labuta, limpou-se com umas folhas, conseguiu levantar-se, ajeitou as calças e se mandou ligeirinho. Dormiu um sono rápido e, nem bem amanheceu, acordou e sentiu vontade de fumar. Pegou um cigarro e... Cadê o isqueiro? Isqueiro de estimação, dado por uma ex-namorada. Vou voltar lá onde deixei o barro, pensou ele. E foi, enquanto o dia apenas começava e a cidade ainda dormia.
   No jardim da casa da dona Manoela, bem atrás da moita de jasmim, achou o isqueiro e o chumaço de folhas com que se limpara. Mas estranhou uma coisa. Nenhum monte ali, sinal do serviço que fizera na madrugada. Tudo limpinho, limpinho. Pensou: não pode, alguma coisa tem que tá errada. Enquanto estava de quatro, ainda examinando o terreno para entender o acontecido, ouve alguém limpar a garganta atrás dele. Vira-se e quem ele vê?
   - Dona Manoela!... Tudo bem ca sinhora?
   - Então foi o senhor o porco sem-vergonha que cagou em cima da minha tartaruga, né?
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e www.tabui.blogspot.com.br/

02/02/2013

O TRIPLO ENGANO




Tavam lá, em plena praça de Tabuí, o Cirino e o Pichula. Já que não tinham o que fazer, apreciavam o movimento de uma ou outra bicicleta, de dois ou três transeuntes, e de uma moçoila por hora até que passa um mancebo estranho, com uma perna da calça amarrada acima da botina, manquitolando. Apressado, desconfiado, olhando pros lados, como quem não quer ser visto... E o Cirino e o Pichula, como sempre, afiando a língua.
- Acho que aquelali caiu da égua, Cirino. Ô de argum boi... Óia como ele tá mancano... Ispia pocê vê!...
O Cirino, como sempre, trolado, concordou descombinando.
- É mezz, sô! Tá inté de dá dó. Mas carculo caquilo é paralisia... Mó quele tá cuma perna mais fina que a otra...
- Paralisia? Rummm! Borá priguntá prele?
Foram. Cirino quem fez a pergunta:
- Causdiquê quiocê manca? Ieu falei pro meu amigo Pichula quiera paralisia e ele – esse daqui, ó - acha quiocê caiu da égua ô dum boi. Cê pode isclarecê pra nóis?
O manqueba, parado que foi bem no meio da praça, não teve escapatória. Teve que dar o seu veredito:
- Ocêis tão inganado e eu tamém singanei. Pensei que era só um punzinho e tô todo cagado...

17/03/2012

Safra de rapadura encalhada

     Naquele ano Amoroso ria a toa, achando que tirara a barriga da miséria.
     - Lavei a briosa, gente!
     Lá no seu varjão nunca dera tanta cana e ele, em conseqüência, bamburrou na rapadura. Fez tantas que teve que arrumar carro de boi para levar a produção para a cidade, a fim de garantir uns trocados. Viagem de dois dias. Só que, em lá chegando, o negócio que parecia tão bom, degringolou. Parece que todo o povo de toda a região de Tabuí tinha feito rapadura. Ninguém comprava os tijolinhos doces do Amoroso e tinha gente com a mercadoria mofando.
     Aí Amoroso pensou vou ficar aqui por uns dias... Quem sabe desencalho minha produção... Mandou de volta o carro de boi alugado e empilhou as rapaduras na praça. Só que os trocados que tinha levado para garantir o sustento, por uns dois ou três dias, chegaram ao fim, enquanto a fome começava. Solução foi comer rapadura. Tempo de seca. Água raleada. De tanto comer rapadura e beber pouca água, deu revertério na barriga do Amoroso. Intestino não agüentou. Resolveu devolver tudo de forma rápida. Mas o nosso herói não tinha muito conhecimento com o povo da cidade não. Sem banheiro e sem privada. O que fazer?
     Ao lado da pracinha havia uma área livre, mas sem matinho. Só uma moitinha de assa-peixe, magrinha e balançante, no meio daquela sequidão. Amoroso deixou a rapadura empilhada e pensou aquela moitinha serve. Falou vou lá e foi. Arriou as calças e soltou o freio deixando o barro descer à vontade, enquanto escondia pelo menos os olhos atrás das mirradas folhas do assa-peixe.
     Mas, bem naquela hora, o vento ficou bravo, balançando a moita como se fosse um gravetinho. Não teve outro jeito. Muito aperreado, não querendo ser visto pelo povo que andava pela praça, não quis ir contra a natureza. Pro lado que a moita ia, Amoroso, embora agachado, acompanhava-a no seu movimento, pra lá e pra cá, enquanto fazia o serviço e se contorcia de cólica.


10/07/2009

Safra de rapadura encalhada

Naquele ano Amoroso ria a toa, achando que tirara a barriga da miséria.

- Lavei a briosa, gente!

Lá no seu varjão nunca dera tanta cana e ele, em conseqüência, bamburrou na rapadura. Fez tantas que teve que arrumar carro de boi para levar a produção para a cidade, a fim de garantir uns trocados. Viagem de dois dias. Só que, em lá chegando, o negócio que parecia tão bom, desgringolou. Parece que todo o povo de toda a região de Tabuí tinha feito rapadura. Ninguém comprava os tijolinhos doces do Amoroso e tinha gente com a mercadoria mofando.

Aí Amoroso pensou vou ficar aqui por uns dias... Quem sabe desencalho minha produção... Mandou de volta o carro de boi alugado e empilhou as rapaduras na praça. Só que os trocados que tinha levado para garantir o sustento, por uns dois ou três dias, chegaram ao fim, enquanto a fome começava. Solução foi comer rapadura. Tempo de seca. Água raleada. De tanto comer rapadura e beber pouca água, deu revertério na barriga do Amoroso. Intestino não agüentou. Resolveu devolver tudo de forma rápida. Mas o nosso herói não tinha conhecimento com o povo da cidade não. Sem banheiro e sem privada. O que fazer?

Ao lado da pracinha havia uma área livre, mas sem matinho. Só uma moitinha de assa-peixe, magrinha e balançante, no meio daquela sequidão. Amoroso deixou a rapadura empilhada e pensou aquela moitinha serve. Falou vou lá e foi. Arriou as calças e soltou o freio deixando o barro descer à vontade, enquanto escondia pelo menos os olhos atrás das mirradas folhas do assa-peixe.

Mas, bem naquela hora, o vento ficou bravo, balançando a moita como se fosse um gravetinho. Não teve outro jeito. Muito aperreado, não querendo ser visto pelo povo que andava pela praça, não quis ir contra a natureza. Pro lado que a moita ia, Amoroso, embora agachado, acompanhava-a no seu movimento, pra lá e pra cá, enquanto fazia o serviço e se contorcia de cólica.