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10/12/2011

A morte manda mensagens

     Lá no sertão é crença comum que quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. O morto tem que estar sempre em movimento. Sempre pra frente. Se os carregadores querem fazer mal a alguém é só parar com o defunto nas terras desse alguém ou na frente da sua casa. É desgraça na certa para o dito cujo. Por isso, donos de terra ficam de butuca quando passa carregamento de defunto. Até tiro dão se há ameaço de parar. Os carregadores têm que ser rapidinhos. Dar sossego depressa à alma do morto pra o distinto não ficar com raiva nem vagando por aí.
     Pois bem. Num certo dia de janeiro, eis que morre o Deusdete. Homem novo ainda. Cufou por causa do barbeiro. Choro para os parentes e pesar entre os amigos. Defunto tinha que ser enterrado. Xico Vitrola, seu amigão do peito, arruma mais cinco para carregar o corpo do Deusdete até o cemitério de Tabuí. Caminho longo, de quatro léguas. Botam o defunto numa rede, onde passam uma vara bem grossa e, dois a dois, vão carregando o amigo até a cidade dos pés juntos. Cansaço muito. Diminuem um pouco a marcha e andam e andam. Tardezinha chegando. Pispiando a noite concluem que não dá para chegar a Tabuí antes do fechamento do cemitério. Negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.
     Cada um se ajeita como pode. Morto é deixado num canto. Puxam o ronco. Cansaço dos diabos. Só o Xico Vitrola, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia, toda brilhosa, no céu. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto parece que se levanta e vem caminhando em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um, assim meio no ar. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito de leve, parecendo fantasmado. Quando Deusdete vai passar por cima do Xico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando os gritos represados na garganta:
     - Pra cima de mim não, coração! Por amô de Deus, Deusdete! Vai pro seu corpo, diabo! Cruzcredo!... Avemaria!... Creindeuspadre!...
     Com a gritaria do Xico da Vitrola, companheirama acorda pedindo explicação. Quecofoi? Queco não foi? Deixa disso, minha gente! Nossa Senhora da Aparecida!... Explicado bem explicadinho, alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Ocride:
     - Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Deusdete deve tá divera puto da vida cagente!
     - E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô?... Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa qui o povo fala seja só boataria...
     Foi o que conseguiu completar João Bentinho, todo cismado, o primeiro que o espírito do Deusdete passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Juca Morais é que ainda, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo conta.
     - Uai, sô! Dexa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Xico tava era com sonhação!
     Na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Deusdete no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.
     Xico Vitrola, naquele ano, teve que fazer o trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes.

27/10/2009

Um defunto diferente

Tião Gordo, que até não era tão gordo, sempre foi muito bonachão e preguiçoso. Não gostava de jeito nenhum de fazer esforço. Certo dia tava ele na cidade e tinha, de todo jeito, que ir pra casa. Desanimado de enfrentar as duas léguas a pé, com a falta de coragem costumeira, resolve arranjar carona. Vem vindo um caminhão. Foi só Tião fazer sinal, o motorista parou.
- Dá carona pra mim?
- Pode entrá aí na carroceria. Só que tô levano um caixão. Vô buscá um difunto. Cê num importa?
- Importo não!
Tião não era homem de ter essas preocupações. O que ele queria mesmo era economizar trabalho para as pernas. Entrou na carroceria, junto com o caixão, e o motorista afundou o pé.
Depois de rodarem um pouquinho, começa uma chuvinha de molhar bobo. O Tião, que não era bobo nada, abriu o caixão e se enfiou lá dentro, fechando a tampa com cuidado. Dentro do caixão tava tão quentinho que o moço pegou no sono. Como o motorista era homem de bom coração, foi dando carona para um ou outro que ia na mesma direção.
Depois de alguns quilômetros havia uns dez caroneiros na carroceria, em volta do caixão, no maior respeito, julgando que lá dentro tinha um morto. Uma velhinha até rezava o terço.
Numa certa hora o caminhão passa a roda traseira num buraco e dá um sacolejo na “carga”. Tião Gordo acorda do sono profundo, lembra da chuvinha e resolve ver como está o tempo. Abre devagar a tampa do caixão, vê aquelas pessoas em volta e pergunta, na maior inocência:
- Gente, já parô de chovê?
O susto foi tanto entre os caroneiros que houve gente que até pulou do caminhão. Tudo porque ninguém esperava que o defunto estivesse vivo.

14/11/2008

Por falar em sofrimento


- Como Fofó não tem mais mió. Ôta home bão, sô!
Era assim que a turma chamava Fofó, o companheiro humilde, sério, bom exemplo e pau pra toda obra. Ninguém mais conhecido, estimado e querido por todos os filhos de Tabuí. Mais pelo que não dizia do que pelo vice-versa.
O único defeito de Fofó foi ter casado com a Aniceta, a cabeleireira mais afamada da cidade que – sinal dos novos tempos - ganhava muito mais que o marido. Mas aí é que a porca torcia o rabo. Mulher difícil, arrogante e que falava de tudo e de todos, por todos os cotovelos. Fofó não fazia nada sem pedir a benção da dona Aniceta. Mesmo com opiniões erradas e contraditórias, tinha que ser daquele jeito. Por isso, ele foi ficando homem triste, de tanto sofrer nas unhas daquela encrenca.
Fofó comerciava na sua venda, ali na esquina da Rua do Comércio com a do Assobio, secos e molhados, mas, tinha dia, não vendia nem um e nem outro. Vez por outra matava um capado e colocava as bandas de toucinho, costelas, suã, pernil, lingüiça, chouriço, e tudo o mais que tivesse direito, sobre o balcão para atiçar a freguesia. Nos tempos livres, quase o dia todo, tocava, na gaita desafinada, os boleros mexicanos. Fora com essa gaitinha, tocando “Las Mañanitas” que conquistara a Aniceta numa noite de serenata e muita pinga e torresmo como tira-gosto. Era também com a gaitinha que Fofó às vezes conseguia acalmar Aniceta quando ela aprontava fuzuê pra cima dele. A venda, nos finais de tarde, era ponto obrigatório para quem quisesse saber das novidades da cidade, uma vez que lá todo assunto era discutido. Não que Fofó fosse fofoqueiro. Não. Da boca dele, não saía um a. Mas o povinho tinha jeito não. Tretou, relou, nomes das pessoas mais insuspeitas iam pra boca do mundo, enquanto Fofó ficava pra cá e pra lá, vendendo suas coisinhas ou fazendo frin-fron.
Apesar dos pesares, o casal levava vida confortável, muito mais pelo trabalho dela, já que as mulheres da cidade, ultimamente, andavam querendo ficar cada vez mais bonitas pros seus homens, com os cabelos cheios de tinta e de cortes modernos. Assim, Aniceta ganhava uns bons troquinhos.
Foi observando isso que um dos amigos do Fofó resolveu dar-lhe uma alfinetada:
- Fofó, ocê anda cheio da bufunfa, heim, sô?
- Quem? Ieu?
- É, home! Fiquei sabendo quiocê tá cheio da grana.
- Isso é lorota, sô! Se num sesse a boca de cabelo da Aniceta eu tava falido, home!
Numa tarde chuvosa e fria quando a pinga já tava rolando e o assunto escasseava, a dona Jaquelina, que fora comprar umas peles de porco mode fritar, começou a falar em sofrimento, carestia, pobreza, falta de leitura e mais outras tristezas. O tema pegou fogo. Uns falavam das injustiças, outros de mais misérias e outros de montão de doenças. Mas o Dionésio, vendedor de balas e bolachas, abismado com a fofocaiada, tentou contornar o assunto com uma ênfase espiritual e, filosoficamente, argumentou:
- Gente, nos sofrimentos e nos espinhos da vida é que colhemos as mais lindas flores. Isso tudo que a gente lamentamos não é nada. Muito mais do que isso Jesus Cristo sofreu!...
Foi aí que o sô Fofó, meio que distraído, mão no queixo e cotovelo fincado no balcão, aprumou o corpo, passou a mão no cabelo alisado à força, piscou um olho, levantou a sobrancelha e deu sua opinião - não sem antes olhar na porta para ver se a mulher não estava chegando - que calou todo mundo:
- Mais, ô minha gente, óia aqui, ó! Meu Jesuscristinho não sofreu tanto assim. Ele não era casado com a Aniceta!... Ó céus! Ó vida! Ó cruiz!...
Mas como nesta vida tudo muda, quase tudo acaba, Fofó, quase vinte anos mais velho que Aniceta, esticou as canelas. O amigo Dionésio resolveu prestar uma última homenagem ao falecido, colocando, sem que ninguém notasse, a gaita entre as pernas do defunto. Mas Aniceta viu. E, já com saudade do frin-fron, chorando e falando alto, exclamou:
- Oh, meu Deus! Como é a vida! O que eu mais gostava está indo embora entre as pernas do meu Fofó!