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18/06/2014

SAI DE MIM, SATANÁS!


      
   Já contei aqui muita história do Cirino. E esta é outra. Todos já sabem que ele é um bebum de mão cheia. Mas não sabiam ainda que a dona Hildelícia, sua mulher, era evangélica. Pois bem. Num certo domingo, já de tardez
inha, Cirino foi chegando bêbado e quebrando uns copos e uns pratos para impor respeito. Quando resolveu que iria quebrar a televisão, Hildelícia, mais que depressa, deu um chega pra lá no fracote do marido e ligou pro pastor.
   - Vem cá, pastor, que meu marido tá com o demônio no corpo!...
   O pastor, homem com um monte de ocupações, demorou a chegar. E o bêbado Cirino, como todos os bêbados que têm em casa uma sala com sofá, mais tonto que um gambá, foi pra sala, deitou no sofazinho e dormiu. O pastor só chegou na boca da noite e foi logo perguntando pra dona Hildelícia, ainda na porta da rua:
   - Cadê ele?
   - Tá aí, durmino, na sala...
   O pastor mal avista o Cirino de boca aberta, babando e roncando, entra na sala e começa a orar, fazendo citações bíblicas e crente de que ali, naquele corpo, havia um demônio. Acima deles, onde antes existia uma lâmpada, só havia um bocal, deixando a sala escura. Mas o pastor, tão eufórico nas suas orações, nem notou este detalhe. E começou as suas exortações:
   - Sai do irmão, espírito do mal!... Sai do irmão, espírito ruim!... Sai do irmão, capeta!...
   Nessa hora, com as mãos para cima, ele, inadvertidamente, enfiou o dedo no bocal sem lâmpada. Aí o trem petecô. O choque foi tão forte que saíram fumaça e cheiro de carne assada. Mas o pastor, ainda eufórico, entusiasmado e concentrado na sua oração, acreditando piamente na presença do demo, continuou, olhando pro alto e tremendo pelo choque:
   - E sai de mim também, ô satanás! 
(Causo garimpado em Itapuranga-GO pelo amigo Divino Martins)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causoshttps://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

07/04/2013

A PORTA ISCANGAIADA




E foi na noite de sexta-feira santa que tavam o Cláudio, a Mariazinha e o filhotinho de sete anos vendo televisão, conversando e tomando umas cervejinhas e um guaraná. Tudo coisa mais inocente deste mundo de Deus, em respeito ao dia em que se comemora a morte de Cristo. Quase meia noite aparece um rato vindo lá do Córrego das Almas e a Mariazinha, desacostumada com esses trens, apronta escândalo. Menino pula no colo da mãe. O Cláudio, mais pra lá do que pra cá, depois de umas quatro ou oito cervejas, quis correr. Mas pensou melhor e, envergonhado, viu que não pegava bem. Resolveu enfrentar o ratinho. O danadinho do bichinho, assustado, correu pro lado da cozinha. Era o que Claudio queria. Fechou a porta que dava pro resto da casa, não sem antes chamar a mulher como companhia. O filho a tiracolo. Encantoou o rato. A Mariazinha com o filho já tavam em cima do tamborete. Com a vassoura numa mão e um espeto de churrasco na outra, Claudio ficou valente.
E começou a gritaria, cada um se esgoelando mais que o outro.
- Ô desgraça! – gritava o Cláudio e metia vassourada no fogão.
- Socorro! – gritava a Mariazinha.
- Vem agora que eu te mato! – Outra vassourada no pé da mesa. Era uma vez um cabo de vassoura...
- Virgem santíssima! Meu Deus do céu! – Nessa hora quem tava com o espeto de churrasco já era a Mariazinha.
- Fura a barriga dele, mãezinha! Enfia o espeto nele!... Era o herdeiro, querendo ajudar, grudunhado no pescoço da mãe.
- Vô te matá! Vô pegá o facão, sô feladamãe!... Passa aqui travêiz, passa!...
- Ai, meu Deus, quieu vô morrê!... – Era a Mariazinha, já querendo desmaiar...
Nem preciso dizer que a gritaria, em plena noite de sexta-feira santa – no interior, naquele tempo, o povo respeitava o silêncio recomendado pro dia – acordou a vizinhança. Só que os vizinhos não sabiam que se tratava de um rato. Pensaram foi coisa bem pior.
- Benhê, o Craudio tá quereno matá a Mariazinha!... Corre lá, home!... – Foi assim que a Malvina acordou o José Padre Nosso, seu marido, dando-lhe um cutucão.
- Vô é nada, sá! In briga de marido e muié a gente num mete a cuié!...
Mas não deu outra. Apareceram bem uns quinze vizinhos no alpendre da casa do casal gritento, prontos para arrombar a porta enquanto, lá dentro, a gritaria continuava. E junto com o arrombamento, veio o silêncio.
- Gente, Mariazinha morreu! – concluiu a Malvina, que, da sua casa, começou a telefonar pra família da falecida para avisar.
Morreu foi nada. Graçadeus.
Assim que os vizinhos arrombaram a porta e correram pra cozinha, tavam lá, rindo, a Mariazinha, o filhotinho e o Cláudio, agachados, em volta da bacia d’água em que o marmanjo lavara os pés ao anoitecer, apreciando o ratinho nadando e tentando fugir. Mas, a cada tentativa de sair, ele escorregava e caia novamente na água.
Tudo explicado, o Cláudio ainda teve o desplante de reclamar:
- Agora quero vê quem vai pagá a minha porta iscangaiada!...

28/03/2013

O GALÃ SURDO




Tavam lá os dois, rodopiando no meio do salão. Baile da festa de aniversário de Tabuí. Saiu gente de tudo quanto é biboca pra fazer o comemoramento. Os dois que eu digo, eram a Luzia de Bem – mocinha regateira, prendada e formosa, vinda do Tapiraí – e o Mário QuatroPaus.
É bom explicar que o QuatroPaus viera de longe, pois que morava na roça, bem umas duas léguas da cidade. Chegara cansado e suado, com o desodorante vencido, fedendo a cigarro e com bafo da cachaça que tomara “mode criá corage”, conforme disse pro seu amigo Manelão. E, de tanto rodopiarem os dois pelo salão, aquilo começou a mexer as entranhas da Luzia e deu tontura nela. Coitada. Tava sentindo uns troços. Levantou o rosto e falou no ouvido do parceiro:
- Moço, me larga quieu vumito!...
Aquilo arrancou sorriso nos lábios do moço QuatroPaus. Feliz, olhando pra tudo quanto é lado como que para se mostrar. E ele comentou, abaixando a cabeça e soltando o bafo:
- Nem tanto, sá! São seus zóio...
Conversa danada de esquisita, pensou a Luzia. Depois de uns dois minutos dançantes, volta ela ao assunto:
- Ó, moço! To falano sério e vô ripiti: me larga quieu vumito!...
- Ah, sá! Gradicido, viu? O trem bão!...
A Luzia não teve alternativa. Entornou o caldo que tinha no estômago bem no peito do QuatroPaus. E o coitado do rapaz, melado e mais fedido, não entendeu como ela fez isso sem avisar. “Ô menos pudia tê virado a cara proutro lado, uai!” - Pensou ele com seus botões. E aquele vomitado, juntado com o cheiro do suor e do cigarro e da cachaça e mais outros cheiros do salão, causava até arrepio em quem se aproximava do QuatroPaus.
- Uai, Mário, o que foi quiocê fez com a moça, home de Deus? Parece que ela até passô mal!... Né não? - Foi o que perguntou o Manelão, em vista do acontecido.
- Uai, Manelão!... Intindi nada, sô! Ela tava me elogiano e de repente intornou o cardo fidido em riba de mim!...
- O que quiela falô procê, sô?
- Uai, ela falô e ripitiu “como ocê é bunito!”... Eu, hein!... Quem quintende as muiés, né?

25/02/2013

O POCASO DO EPAMINONDAS





Epaminondas com a Vicentina viviam como que enterrados lá nos cafundós de Toá, na roça, dias, meses e anos a fio. Em Tabuí só apareciam em época de Semana Santa, quando iam à igreja do padre Anacleto, para acertarem a contabilidade com Deus, Nosso Senhor.
Mas um dia, eles, que nem conheciam a capital, resolvem ir a Bel’zonte. Vicentina bota bastante vidiperfume na mala de papelão, causdiquê seu sonho era conhecer um shopping. Umas roupinhas de ver Deus, umas chinelinhas, um par de botinas e... Pé na tábua.
Na capital, já no pondiôns perda rodoviária, o casal começa com uns desacertos por que não sabiam pra que lado era o shopping, na Praça da Savassi.
- É pra lá, Centina!
- Né não! É bem pra lá, Paminonda!
Cada um apontava pro lado oposto do outro. Só quando resolveram perguntar “cêssá siesse ôns passanassavass?” é que descobriram que o Epaminondas estava certo.
No shopping havia a apresentação de umas momças muito bonitas mostrando um monte de coisas e, inclusive, uma coleção de maiôs, biquínis e lingeries. Epaminondas achou aquele trem bão demais da conta, encarapitado nas pontas dos pés, olhos bem arregalados mode não perder nada do espetáculo... Babando de montão e mãos nos bolsos.
Vicentina, vendo o assanhamento do moço, com comportamento bem diferente daquele marido pacato lá da roça, tão manso e tão vergonhento, não aguenta o vexame e, com ciúme nunca dantes aparecido, passa-lhe uma escaramuça:
- Oncêtá ca cabeça, home de Deus? Qui cara de bobo é essa, Paminonda? Até parece quiocê nunca viu perna e nem peito de muié inhantes!...
Sem tempo de prestar atenção ao que a mulher dizia, ainda com os olhos grudunhados nos traseiros das moças, Epaminondas responde:
- Uai!... Num é de vera, muié? Óiaqui, ó!... Sáquieu tamém tava pensano a mema coisa?

10/01/2013

VITALINO CUIDANDO DA MULHER

     O Vitalino tava cansado de ouvir as queixas da Malvina. Não tinha dia que ela não reclamasse. Era só o Vitalino entortar o zóio pro lado dela que vinha queixa:
     - Sai pra lá, home! Minha bixiga tá doeno!... Cê num sabe?
     Quando já tava subindo pelas paredes, Vitalino não teve solução. Foi levar a mulher ao médico lá em Tabuí pra ver se resolvia o problema.
     - A senhora urina com abundância? Perguntou o médico enquanto apalpava a barriga da Malvina.
     Aquela palavra não existia no dicionário da coitada. Como não entendeu, ficou calada. Mas, como a informação era importante para o médico, ele repetiu:
     - A senhora urina com abundância? – perguntou mais alto. E ela, com cara de paisagem.
     Aí Vitalino achou que era hora de tomar um providenciamento.
     - O sinhô qué sabê o que mezzz, dotô?
     Com cara de poucos amigos, olhando constantemente o relógio, como normalmente acontece com os médicos, ele fala:
     - Já estamos completando os dez minutos da consulta! Eu quero saber é se sua mulher mija com abundância!
     - Não, dotô! Acho que não! Acho que é com a outra coisa mezzz!...