27/10/2009

Um defunto diferente

Tião Gordo, que até não era tão gordo, sempre foi muito bonachão e preguiçoso. Não gostava de jeito nenhum de fazer esforço. Certo dia tava ele na cidade e tinha, de todo jeito, que ir pra casa. Desanimado de enfrentar as duas léguas a pé, com a falta de coragem costumeira, resolve arranjar carona. Vem vindo um caminhão. Foi só Tião fazer sinal, o motorista parou.
- Dá carona pra mim?
- Pode entrá aí na carroceria. Só que tô levano um caixão. Vô buscá um difunto. Cê num importa?
- Importo não!
Tião não era homem de ter essas preocupações. O que ele queria mesmo era economizar trabalho para as pernas. Entrou na carroceria, junto com o caixão, e o motorista afundou o pé.
Depois de rodarem um pouquinho, começa uma chuvinha de molhar bobo. O Tião, que não era bobo nada, abriu o caixão e se enfiou lá dentro, fechando a tampa com cuidado. Dentro do caixão tava tão quentinho que o moço pegou no sono. Como o motorista era homem de bom coração, foi dando carona para um ou outro que ia na mesma direção.
Depois de alguns quilômetros havia uns dez caroneiros na carroceria, em volta do caixão, no maior respeito, julgando que lá dentro tinha um morto. Uma velhinha até rezava o terço.
Numa certa hora o caminhão passa a roda traseira num buraco e dá um sacolejo na “carga”. Tião Gordo acorda do sono profundo, lembra da chuvinha e resolve ver como está o tempo. Abre devagar a tampa do caixão, vê aquelas pessoas em volta e pergunta, na maior inocência:
- Gente, já parô de chovê?
O susto foi tanto entre os caroneiros que houve gente que até pulou do caminhão. Tudo porque ninguém esperava que o defunto estivesse vivo.

13/10/2009

E o circo chegou em Tabuí...

Depois de muitos anos a pão e água, chegou circo em Tabuí. Pequeno e fuleiro, montado em meio dia de trabalho. Molecada em cima, fiscalizando e apreendendo. Marmanjos de butuca. Grã Circo Americano. Glória para a cidade. Nome pomposo, sugerindo ao povo um monte de artistas estrangeiros. Merreca de fazer dó. Nem assentos para a distinta platéia. Umas tábuas mal colocadas, empenadas, garantiam o lugar de umas poucas pessoas. A lona que o cercava, toda ensebada, cheia de buracos e remendos. Cobertura não havia.

Assim que notou a movimentação da montagem do circo, a Luiza Abete, moreninha pra lá de ajeitada, da ladeira do Beco, se ajeitou toda, botou brinco, passou batom e pó de arroz e foi pra rua. Pensando no mais tarde. Caçou com os olhos o Nildenô, - sua paixão -, distraído, ocupado em plena fiscalização do movimento. Ela interessada e o outro regateando, como quem não quer nada, mas querendo tudo.
– Cê vai no circo hoje, Nildenô?

– Sei não, sá! Confofoovô!...
Até a moça Jaquelina deixou bilhete pro coitado do chefe avisando que não ia trabalhar na loja de secos e molhados naquela tarde. Tava meio adoentada...

– Vô lá o quê! Aí o chefe pega no meu pé e num deixa eu ir no circo!...
A grande estréia seria às sete da noite. Às três o palhaço, devidamente paramentado, chamava a criançada para percorrer as três ou quatro ruas da cidade. Às quatro, mais menino que gente. Começa a bagunça, depois de pequeno ensaio. O palhaço, montado numa jumenta fogosa, enfeitada com flores de plástico descoradas, puxa a molecada pela rua do Comércio.

– Hoje tem espetáculo?
– Tem, sim sinhô!

– Hoje tem marmelada?

– Tem, sim sinhô!

– E o paiaço, o que é?

– É ladrão de muié!...
À molecada que acompanhasse o palhaço, fora prometido ingresso para a estréia. Assim que a tribuzana chega na praça, encontra o Mirto Ladeira, que vinha do trabalho na roça e, como sempre, com fome, cansado e puto com as injustiças da vida, mas cheio de amor a Deus. Esqueci de dizer que Mirto tava montado num jumentinho novo, gordinho e muito animado e que a jumentinha do palhaço tava no cio. Não deu outra. Paixão à primeira vista. Assim que se olharam, começaram aquela barulheira, correram um para a outra e vice-versa. Desobediência plena aos comandos dos freios e rédeas. Um zurro só. Não adiantou chicote e espora do Ladeira com os seus gritos de paracuisso e quequiéisso gente e nem a gritaria do palhaço, tudo captado pelo auto-falante. O jumento se armou todo e crau. O palhaço teve que pular fora para livrar o trazeiro e a zueira babenta do animal no seu cangote e caiu de mau jeito, batendo a testa numa pedra. Mirto Ladeira, no empino do jumento, caiu de costas, rolando no meio da meninada. Um grande e hilariante espetáculo, como há muito não visto
em Tabuí. O palhaço, meio tonto, sem entender direito o que acontecia, berrava a plenos pulmões, pelo auto-falante:
– Gente! Oquecouve? Oncotô? Poncovô? Qui trem mais esquisito, sô!...
O Mirto, ainda mais puto da vida pelo tombo e por aquela sem-vergonhice toda, arrancou a peixeira e queria achar o culpado pela tragédia.

– Arreda, sôs muleque! Cadê ele? Cadê ele?
O palhaço isalou no mundo, abandonando jumenta e catracagem de som. Da molecada, alguns chegavam a rolar no chão de tanto rir. Outros, mais inocentes, se retraiam, saindo de mansinho. As meninas, idem, tentando tapar olhos e ouvidos, ao mesmo tempo. E o povo, com aquela latumia toda, foi chegando, atraído pela tribuzana transmitida no alto-falante. Quando chegou o padre Dima, com sua maquininha de retratista sempre à mão, cheio de interrogações, correndo, arfando e suando dentro da longa batina preta, foi menino pra todo canto. Não ficou um pra contar a história e pra pegar o ingresso. Aí o seu Mirto Ladeira caiu de joelhos, aos pés do vigário, pedindo perdão por aquele pecado para o qual, inconscientemente, acabava de colaborar, trazendo a jumentinha pra praça, justo naquela hora.
Bem depois das sete em ponto começa o espetáculo. Quase só adultos. A meninada, correndo do padre, ficara sem o ingresso prometido. Como o circo só tinha lugar para uns poucos sentados nas tábuas empenadas, quem podia trouxe a sua cadeira de casa. No primeiro número, lá estava o palhaço de novo, precedido pelo retumbar de tambores que saía de uma radiola velha. Começou ele com aquele papo de palhaço, conseguindo uma ou outra risada amarela, até que pediu um voluntário para a mágica. Sim, era mágico o palhaço. O Milomem, - mais conhecido como Milinho - que havia entrado por baixo do pano, garoto assim duns treze anos, se ofereceu. O palhaço mágico mandou que ele se abaixasse, com as mãos nos pés e o traseiro arrebitado. Aí aprontava aquele monte de palhaçadas, conseguindo que algum ou outro risse. Nesse primeiro número de mágica, o palhaço arrancou do bumbum do Milinho, assim fazendo muita força, uma peteca, com penas bem compridas e um ramalhete de flores cheias de espinhos.

– Isso é uma indecência! – bradou a dona Daiana, doida para aparecer e fazer propaganda pra sua tendinha de ler a sorte lá no canto da Rua do Assobio.

– É memo! Aqui tem famia! Vamo pará cuisso! – gritou dengosa e virando o zoinho a menina Carorina, pendurada no pescoço do Zé Pretinho e numa esfregação quisó.

– Tadinho do minino! - gemeu a dona Cláudia - a mãe do ano de Tabuí - arrepiada no seu recatamento, crente que aquele monte de espinhos tinha, de fato, saído do traseiro do Milinho.
– Meu Deus do céu! Que trem escandaloso! – reclamou a moça Dianaminha, olhos carentes, na esperança de ser achada, dentro do circo, por aquele menino que queria ser padre....
O mágico palhaço, desconfiado que o mar ali não estava para peixe, rapidinho recolheu a aparelhagem. Fez gesto pro auxiliar e subiu novamente o rufar de tambores, enquanto ele caía fora do picadeiro. Passaram-se vários minutos, só tocando música militar de um bolachão arranhado, naquela radiola velha. O público impaciente. Aí, é anunciado pela voz do palhaço, o número do leão.

– Bicho feroz, vindo há poucos dias lá das banda da Floresta Amazônica!...

– Eu, heim?!... Leão tupiniquim? Nunca vi isso!... - era a professora Patricilda, - mostrando sapiência para os vizinhos da platéia.
O picadeiro foi cercado com uns pedaços de tela grossa mal emendados e o leão trazido, numa jaula, carregado por quatro pessoas, uma delas o palhaço, que era também o domador do circo, homem bem entendido de habitat animal. O bicho chegou cochilando e cochilando ficou, mesmo quando a jaula foi aberta. Deitado, magro, sujo e desanimado, só se levantou quando ouviu o estalo do chicote do palhaço domador. Aí a fera ficou brava e saiu da jaula soltando urros fortíssimos, fazendo muita gente na platéia ficar com o coração pequenininho na mão. Houve quem, aproveitando a oportunidade, pulasse no colo do vizinho, como aconteceu com a Carorina e a Analuiza – as duas já um pouco mal faladas pelas redondezas. A última porque dera, ultimamente, a andar com polícia e garrucha na cintura. O domador estala de novo o chicote e o leão se assusta, indo de ré e batendo na tela que o prendia ao picadeiro. Um pedaço dela cai pro chão. Não deu outra. Vendo o buraco aberto, o bicho cai fora e vai pro meio da platéia, - da turma que trouxera cadeira de casa - urrando e encarando um ou outro com olhos apetitosos. Foi nessa hora que o delegado Coríntio, que mal tinha chegado e arrumado um cantinho pra sua cadeira, sentindo o bafo do leão assim bem pertinho dele, mas querendo dar uma de machão, resolve apelar, sem decidir se corria ou se ficava. Recurso foi gritar, mais forte que o leão, para assustar o bicho:
– Larga d'eu, trem! Arreda, satanais!...
Cada um se vira como pode. Saindo de fininho. Alguns, pé ante pé, carregando sua cadeirinha. Ninguém queria encarar o bicho. De vez em quando ele, - o leão -, sem entender que estava livre, soltava urros que arrepiavam cabelo de neguinho. E o povo vazando fora, querendo distância da fera. Muita gente subiu pras tábuas que formavam a arquibancada do circo e aquilo foi pesando. O Pedro Alfaiate, mais conhecido por Pedroca, que conseguira lugar na emenda entre uma tábua e outra, estava quase vazando, com o traseiro afundado, já que as tábuas arrebitaram os cantos.

– Ai, meu Deus, desde pequena eu queria assistir o circo, mas o trem aqui num tá bão!... – isso era dona Renata, - que chegara recentemente lá do Arraial do Sossego -, gemendo, gungunando com seus botões, chorosa pelo tempo perdido e o dinheiro gasto.
Aí o leão resolve olhar e caminhar pro rumo do povo das tábuas, e a turma, quase em peso, se levanta e começa a pular, caindo e rolando de qualquer jeito, vazando por debaixo do pano e ganhando o mundo. Menos o Pedroca, que tava procurando os óculos para achar a bengala. Acontece que a turma, ao levantar da tábua, o peso sobre esta diminui e o Pedroca fica com o traseiro preso e os ovos espremidos. Esquecendo de óculos e bengala, gemendo, com os olhos cheios de lágrimas e muito mais alto que o domador palhaço, que chamava o leão pelo alto-falante, o Pedroca reuniu as parcas forças, premido pela dor, e gritou, implorando, na esperança de que alguém o atendesse:
– Senta, gente!... Senta meu povo! Senta que o leão é manso!...
E soltou um gemido de agonia com as forças que ainda tinha, prestes a desfalecer:

– Ai, meu saco!...
Ainda bem que, nessa hora, antes de vazar pelo buraco mais perto que achara na lona, dona Quiristina viu a cena, teve dó do homem e do seu documento, que já devia estar mais do que roxo, e se pendurou no meio da tábua para, forçando-a, libertar o Pedroca do sufoco.

08/10/2009

Aprendendo com a vida, aos trancos e barrancos

Para quem pensa que vida no interior é uma chatura só, muito se engana. Chatura é viver na cidade grande, cercado de carro e prédio e povo. Ninguém conhece ninguém. Aqui não. É um povo unido, alegre, vivendo com dificuldade, mas com muitas histórias para contar aos filhos. Tem aqui muita gente espirituosa, sempre inventando manhas pra rir da cara uns dos outros.
Outro dia, por exemplo, aprontaram uma com o Tadeu. Menino bão demais da conta, rezador, coroinha até, filho de mãe rigorosa e pai trabalhador.
- Tadeu, vai ali na rua do Comércio e descubra pra mim quanto custa um martelo para desentortar vidro...
- Hãn? Martelo? Pra desentortá vridro? já vô!
Quem pediu foi o Casemiro, sapateiro que vivia à custa de botar meia sola em sapatos furados nas ruas cheias de cascalho e poeira de Tabuí e que, enquanto trabalhava, enchia os ouvidos do Tadeu de potoca.
A rua do Comércio tinha umas duas ou três lojas. O Tadeu foi em todas até que, na sua simploriedade, depois de muito rirem da cara dele, descobriu que não existe o tal martelo desentortador de vidro. Aprendeu com a vida. Diferentemente da última vez, que foi no tapa. O Casemiro avisara pra ele e pro Geraldinho, debaixo de segredo, que, no Mercado da Linha, tavam contratando um menino para desentortar banana e que, daquele dia em diante, só iria vender banana reta. Os dois, doidos por uma graninha, saem na maior correria e, no meio do caminho, após se insultarem, começam a briga.
- O emprego é meu!
- Seu nada! É meu, seu viado!
Isto dito enquanto corriam ladeira acima, soltando os bofes. Aí, pararam e partiram para os tapas e pescoções e rolaram pelo chão, até que chegou a turma do deixa disso, inclusive o dono do Mercado da Linha.
- Não. Não tenho esse emprego não. Vou continuar vendendo banana torta mesmo!... - E caiu na risada, assim como a platéia que se formara, até o Casemiro que chegara a tempo de curtir a cara de sério dos dois briguentos.
Naquele dia, assim de tardezinha, chega na cidade o Niltão da Filó, montado numa égua mojando, bem adiantada. Niltão não se importava muito de dar carinho pros animais não e, talvez pelo excesso de esforço, a bichinha teve cria, que nasceu morta, bem na praça da matriz. Com preguiça de carregar dali o podrinho morto, chamou o Geraldinho e falou:
- Lá no açôgue Vaca Profana tão comprano bezerro e cavalo novo pra fazê sarsicha. Pudrinho nascido morto, então, vale o drobo pelo quilo. Vai lá! O que ocê conseguir é seu...
Geraldinho juntou com o Tadeu, com quem já tinha feito as pazes, e chamaram mais uns cinco moleques. Foram, rua acima, puxando a carga, que colocaram sobre um couro de boi. Enquanto subiam a ladeira, faziam planos do que fazer com a dinheirama que ganhariam. Até que descobriram a cilada em que caíram, pois que, no Vaca Profana, receberam foi um xingatório, indigno de nota, do açougueiro, puto da vida de ter, à sua porta, aquela imundície virando carniça.