31/08/2008

Quem Ama a Feia...


Ele entra no baile. Bitelo dum salão. Gente muita balançando o esqueleto e esfregando coisa com coisa. Mancebo olha pra cá, olha pra lá... Imbica meio cambaleante rumo duma loirinha toda sirigaita.
- Bamo dançá?
- Vô nada!...
- Vamo, sá!...
- Vô nem vê! Tô ca perna dueno, sô!
Loirinha refugou convite. O moço bêbado, bafo espantante. Ele era gente de fora e mais feio que filhote de urubu cagado. Chama mais uma dama, mais outra e... Nada. Nem a neguinha do cabelo alisado com alisaton e nem a loura oxigenada com uma pintona no queixo e catinga de cecê. Depois de várias tentativas encontra aquela que mais parecia um barril: baixinha, barrigudinha e cinto apertadinho segurando as banhas. Nem precisa falar que era feia. Medonha. Estava num cantinho do salão, olhando pra cá e pra lá, aguardando um corajoso. O nosso herói vendo-a assim, toda largada, diz pra si mesmo: "é com ela que eu vô". Menina atende rapidinho ao piscado do feioso e saem os dois rodopiando pelo salão. Cai aqui, cai ali, equilibra de cá, equilibra de lá, até que se ajeitam e entram num acordo dançante. E o feioso pensando: "tô feito!... É feia, mas dá uma boa meia sola... Depois dum fim de noite cumigo ela pode até ficá apaixonada..." Aí a feiosa dama, para azar seu, resolve arrumar assunto.
- Ocê num é daqui, num é memo?
O mau hálito represado que saiu da boca da feia foi tanto que deixou o bêbado meio desorientado, já que era só acostumado com o bafo da canjebrina. E sem entender de onde vinha tanta fedentina, abaixou o cangote e cochichou no ouvido da sua paixão baixinha:
- Arguém peidaro!...
- Mas num fui'eu! - Respondeu precipitada a gordinha toda desorientada.
- Ih!!!... Sujô!... Peidaro de novo!...

A fotografia


Lá no Tabuí acontece muita coisa. Umas engraçadas, outras boas ou tristes e umas até muito ruins. Como em qualquer lugar do mundo. Mas também acontecem coisas misteriosas...
Vitalino, cansado da mulher, já amarrotada e gasta pela vida, arranjou namorada. Tudo debaixo de segredo grande. Saía da suas terrinhas, de uns quatro ou cinco alqueires, distantes quase uma légua, e ia bater na cidade, toda tardinha, levando ovo, abóbora, galinha, banha e banda de porco, lingüiça e o que mais pudesse. Abastecê a dispensa da Mariinha, mode ela ficá fortona... Pensava ele com seus botões. Voltava para casa tarde da noite, refestelado, olhava tristonho pra cara da mulher, à luz da lamparina, dormindo pesado, cansada da labuta diária, deitava e também dormia. Zefinha, cheia de amor e respeito, não abria a boca para falar um a, mesmo notando mudanças no marido. Mariinha, com o tempo, é que mudou o comportamento.
- Óia, Vitalino, quero que ocê vem aqui agora só uma vez na semana, nas quarta-feira, tá bão?
- Mas pruquê, Mariinha? Ce num qué mais ieu?
- Né isso não, deixa de sê bobo, home! E, quando cê vié, traz bastante coisa de cada vez, viu? Arroz, feijão, farinha, fubá, carne e mais misturas, tá bão?
- Tá bão, Mariinha... Só quarta-feira?
- É. Só te recebo na quarta-feira. Nos outros dias, nem pensar. Quero descanso.
Mariinha era moça nova, fogosa, bonita, bem menos da metade da idade do Vitalino, que chegava a mais de quarenta. A moça, saída da roça, aprendera logo manha da cidade, até a conquistar homens usando o corpo e viver às custas deles. Chegada em sexo, se esvaía e se contorcia de prazer, trazendo juventude àqueles seus parceiros insatisfeitos, quase nunca bem servidos em casa. A cada noite, a horas e dias marcados com rigor, chegava, sorrateiro, homem naquela casinha de canto de rua, com sacolas, sacos e outras bruzundangas. Poucos novos. A maioria, caindo pelas tabelas, mais pra lá do que pra cá, mas serelepes para ver a amada, cada qual pensando ser sua única paixão. Mariinha, pelo jeito, sabia agradar a todos. Segredo se fazia necessário. Quando não casados, comprometidos com moças da alta grã-finagem de Tabuí. Segredo do negócio era fazer segredo do ofício.
Ao único amigo, sabedor da história do Vitalino - e doido para entrar de sócio - que perguntara porque ele não mais estava indo amiúde à cidade, o apaixonado respondeu simplório:
- Quero cansá ela não, sô! Só vô quarta-feira que é quando ela mandô. Sou home bedecedô, uai!...
Certo dia, Vitalino resolveu mudar a situação.
- Cê casa c'oeu, sá?
- Casar? Como, se ocê já é casado?
- A gente dá jeito, uai!
- Então dê!
Mariinha até chegou a considerar ter umas terrinhas, assim na beira do rio, todas planas, plantadas, cheias de frutas e criação, com casinha boa. Mas, depois, pensou na responsa de cuidar de casa, fazer comida pra pião, tratar dos bichos, lavar roupa e ter um homem só, sem ganhar nada... Bobagem, sô! Quero é vida mansa!... Espantou pensamento e esqueceu a proposta.
As visitas do Vitalino continuaram até que, no dia do aniversário dela, ele propôs:
- Bamo lá em casa, Mariinha?
- Lá? Fazê o quê?
- Drumi cumigo, uai!
- E sua mulher, homem de Deus?
- Ta lá mais não. Foi embora!...
Vitalino queria que ela, acobertada pela noite, conhecendo suas posses, resolvesse de vez ficar com ele, agora casando, já que a mulher fora embora. Mariinha montou na garupa, já tarde da noite, sem olhares bisbilhoteiros e fiscalizadores e foram. Não sem antes passar no Tõinzin retratista.
- Quero tirá retrato c'ocê lá em casa, sá! Lembrança da primeira noite em nossa casa...
Tõinzin colocou o casal em várias poses e cômodos diferentes, mas não dava certo. Uma sombra sempre atrapalhando o foco. Desmontou a máquina, limpou, lavou, soprou e nada. A sombra persistia. Vitalino, cansado de poses com a Mariinha, querendo ficar a sós com ela, para os principalmentes, mandou o Tõinzin bater assim mesmo.
- Bamo vê no que vai dá, uai!
Surpresa na hora da revelação. A sombra tomou forma. Bem atrás do casal de amantes, o corpo de uma mulher deitada. Mandada a foto para investigação, desvendou-se o crime e foi encontrado o corpo da Zefinha, enterrado no canto do quarto, debaixo da cama, onde ela, por anos e anos seguidos, dormira com o seu amado.

25/08/2008

Toró não é Garoa nem Dorô é Procissão

A procissão ia passando solenemente, molenga, pelas pacatas e tortuosas ruas de Tabuí. Muita gente devota. Vigário, coroinhas, beatas, banda de música e matracas a matraquear em homenagem ao Senhor morto. Procissão do Enterro. Plena Semana Santa. Tardezinha. Quase escurecendo.
Povão todo com velas acesas. Irmandades de tudo quanto é nome acompanhavam entre as duas alas da procissão, o esquife mortuário. Senhoras piedosas desfiavam as contas do rosário. Moças casadoiras, véu branco na cabeça, com os olhos enviesados para a outra fila, a dos homens, onde poderia aparecer algum candidato mais bem apessoado.
E lá na frente da procissão ia o Doroteu, vulgo Dorô. Cabelo pretinho, tingido na véspera, para combinar com o paletó. Era o membro mais devoto da Irmandade do Santíssimo. Todo empertigado, caminhando mais duro que santo em procissão, envergando uns enfeites avermelhados por sobre o paletó e o emblema da Irmandade bordado na altura do peito. Sua função era carregar a cruz, pesada pra dedéu, auxiliado por quatro ajudantes. Cada um dos quatro segurava uma corda amarrada à cruz para impedir que ela tombasse deixando o Doroteu em apuros.
O peso da dita cuja era tanto que o nosso herói mal conseguia disfarçar alguns gemidos. Não tinha condições de fazer nenhum movimento, a não ser andar rijo e vertical como uma estátua, sem nem poder virar a cabeça, igual burro de carroça.
Mas tudo ia muito bonitinho, dentro dos conformes, até que começou o aguaceiro. O toró caiu de repente apagando a velaiada e pondo todo mundo a correr. Tudo no maior respeito. Muito silenciosamente. Cada um encontrou casa ou um canto qualquer para não se molhar. O corpo de Cristo achou abrigo debaixo do primeiro alpendre que apareceu. Até o vigário, o Padre Anacleto, com medo de resfriado, concluiu que não era nada demais esperar passar a tempestade dentro do açougue aberto às pressas pelo dono. Ficou lá, paramentado, no meio daquela carnaiada toda.
Só Doroteu é que não viu o corre-corre e nem a fuga dos seus ajudantes. Não podendo olhar de lado e nem para trás e sem desconfiar do que acontecia, continuou sozinho, tomando chuva no lombo. Da cabeça escorria um caldo preto. Ele nem notava. Todo serioso fez o percurso combinado, realizando por conta própria a procissão do eu-sozinho. Sem velas, sem banda de música, sem vigário, sem gente, sem nada...

Confusão de DOPS com DROPS

No início dos anos setenta, grande parte da juventude tabuiense imitando a onda, deu pra falar gíria. O jovem Boanerges havia voltado de Brasília onde passara quase dois anos. Brasília, além de ser capital da República, era também a capital da gíria, dado o grande número de nordestinos que viviam por lá. Boanerges teve seus mestres nas colônias do Nordeste, em Brasília. Depois de muito aprender, volta à terra natal, Tabuí. Lá encontra um cinqüentão, gaúcho da fronteira, velho malandro, baixinho, magricelo, com os dedos cheios de anéis, pulsos com variadas pulseiras, pescoço empatufado de correntes e colares. O Wenceslau, casado com uma filha da terra. Era mais um nômade que morador da cidade. E falar gíria era sua especialidade.
Boanerges e Wenceslau se juntaram em grande amizade. Não se separavam nunca, parecendo bagos de cachorro. Povo de Tabuí começou a imitar os dois no seu palavreado girático e danaram a seguir os dois. Os botecos onde os dois iam tomar seus pileques pareciam salas de espetáculos. Os aprendizes e espectadores ouviam extasiados o bate-papo dos dois amigos que mais parecia um diálogo em algum dialeto estrangeiro. Mas aquela amizade inseparável e aqueles constantes e estranhos bate-papos gerou suspeita sobre os dois amigos. Tinha gente do DOPS (Departamento de Opinião Pública e Social) na cidade investigando uma história sobre o tráfico e uso de maconha. Boanerges e Wenceslau foram presos e levados pro depósito da Lagoinha, na capital mineira.
Ficaram lá trancafiados por mais de vinte dias mas, como não tinham culpa no cartório, conseguiram provar sua inocência. Assim que foram soltos as respectivas famílias enviaram dinheiro para a compra das passagens, providenciadas pelo próprio pessoal do DOPS. Os dois amigos estavam eufóricos, não só por ficarem livres mas, principalmente, pela oportunidade que teriam novamente de molharem o bico com a boa canjebrina. Ao se despedirem dos companheiros de cela foram avisados:
Tomem cuidado! Vão direto pra rodoviária! Não passem nos botecos nem pra comprar cigarros. A polícia do DOPS vai seguí-los e se os vir entrando num boteco vão trancafiá-los de novo!
Tanto um quanto o outro já estavam psicados e traumatizados com a palavra DOPS. Ansiosos para voltar pra casa e também para a boemia. Saíram do depósito de presos. Mochilas na mão. Parecia um sonho. Liberdade.
No trajeto até a rodoviária, chegando na boca da passarela do ribeirão Arruda, ainda lá em Belô, havia um bando de garotos que vendia balas, pirulitos, chocolate e o diabo a quatro. Um dos garotos gritou em voz alta, bem atrás dos dois companheiros:
- Óia o drops! Treis por cem!
Só que o Boanerges entendeu errado: “A Dops envém!”. E esticou as botinas a mil por hora. O Wenceslau, muito fraco e com as pernas duras, gritava em voz alta:
Pera aí, seu Boas, meu irmão de sangue!
Não adiantou nada. Seu Boas sumiu no mundo e só foi parar muito desconfiado em Tabuí, na carona de um caminhão boiadeiro.

Causos novos?



  1. Meus leitores já devem ter observado que estou colocando
    aos poucos, aqui, os causos que já leram no meu outro blog. E vou continuar assim
    durante algum tempo. A idéia é juntar tudo que escrevi no “Tabuí e seus Causos”.
    Numa outra etapa vou passar a colocar causos e histórias de outros autores, bem
    como textos novos de minha autoria. Aguardem e confiem.

17/08/2008

O bêbado e o pastor




Não preciso dizer que Tabuí tem a maior concentração de bebuns por metro quadrado do país, porque seria redundante. É assim mesmo. Cidade pobre, pequena, sem emprego... Povo sem instrução, sem diversão, cheio de verminose, raquítico e anêmico... A melhor maneira que os homens têm para aparecer e se auto-afirmar é enchendo a cara, mesmo fiado, pois que dindim raramente dá as caras por aquelas bandas. E as mulheres tabuienses, quase sempre abstêmias, para não fugir à regra, passam a vida reclamando dos seus homens porque bebem.
Naquela noite, na igreja dos crentes, apareceu um bêbado. Pessoa estranha nas redondezas. Franzino, unhas grandes, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, roupa suja, barbicha crescida e, como qualquer bêbado que se preza, trocando as pernas. O pastor, doido para conseguir fama e defender uns trocados a mais, conquistando novos fiéis, diz pras suas nove ovelhas:
- Irmãos! Deusde qui vi esse home, fiquei arripiado... Ele tá co diabo na cacunda!...
- Amém! Aleluia! – responderam todos.
O bêbado, que tava era muito cansado, não quis conversa. Foi logo se esparramando no banco da frente, doido por um cochilo.
- Vamo expursá o demo deste infeliz, meus irmão?
- Amém! Aleluia!
- Se acheguem pra perto!
Fizeram roda em torno do recém-chegado que já dormia. Dois irmãos pegam-no pelos braços e, um terceiro, pelas pernas, obrigando-o a se levantar. O pastor joga-lhe um copo de água fria – que dizia ser benta – no rosto.
- Ordeno, santanás! Deixa em paz esse pobre coitado! Arreda pra lá, trem! Disaloja!
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado consegue abrir um olho, na maior má vontade e, sem entender a fria em que se metera, só gunguna:
- Hã?!...
- Santanás! Vai pro teu mundo e abandona essa pobre alma!...
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado vê seus brios feridos e acha que estão passando dos limites. Abre os dois olhos bem arregalados, macho por estar sendo subjugado por dois irmãos dos mais nutridos e grita, em linguagem da classe bebum, toda cheia de finesse:
- Larga deu, cambada de fedaputa! Hic!... Vai pros quinto dos inferno! Hic!...
Calafrio geral na igreja. As cinco irmãs tapam os ouvidos, escandalizadas, enquanto o pastor, com a bíblia encardida na mão esquerda, força, com a direita, a cabeça do bêbado para baixo e também grita, acertando no substantivo, mas errando no verbo :
- Satanás! Disaloja daqui! Disaloja, já! Vamo! DISALOJA!
O bêbado, puto da vida com tanta insistência, já pronto até a se converter para ter sossego e curtir seu sono, entrega os pontos.
- Ta bão! Hic!... Intão eu vô dizê! Mas despois cêis me deixa em paz! Hic! Pode sê quarqué uma?
- Disaloja, satanás! Disaloja já! Disaloja! Disalooooooooja! - gritava, com toda a força dos pulmões, o pastor.
- Intão tá! Óiqui, vô dizê umas, hic... Loja Pernambucana, Lojas Americana, hic, Loja Arapuã, Casa Sirva... Tá bão? Taí! Já disse as loja! Agora quero drumi! Amém! Aleluia! Inté! Hic!...

O homem com cara de mau

Chegou o homem no boteco. Todo estranho, com cara de mau. Pispiava a noite. Arraialzinho escondido lá nos cafundós de Tabuí. Mineirinhos agachadinhos aqui e ali, cada um aprontando seu cigarrinho de palha e tomando uma pinguinha para tirar a poeira da goela.
O homem com cara de mau, logicamente mal encarado, bigode tapando metade da cara, vai entrando e chutando uma cadeira que estava no caminho. Chega direto pro dono do boteco, dá um murro no balcão fazendo tudo quanto é copo pular. A platéia assiste tamanha valentia, sem dar opinião. Cada um picando seu fuminho, dando aquela lambidinha na palha e só assuntando com o canto do olho como quem não quer nada.
O visitante estranho, com voz grossa, daquelas dos mocinhos de bangue-bangue, grita pro botequeiro:
- Bota uma pinga aí, ô magrelo!
Mineirinho, prestimoso, vai lá na prateleira, pega o litro da água que passarinho não bebe e serve uma boa talagada pro homem com cara de mau que vira tudo duma golada só. Platéia observando. Rabo do olho.
- Me dá otra pinga aí, ô nanico!
Mineirinho tava ficando arrepiado. Homem muito desaforento. Carecia ficar mais assossegado. Depois de enxugar o copo umas quatro vezes, o da cara de mau resolve provocar todo mundo enquanto alisava o cabo da peixeira presa na cintura:
- Pur acaso tem aí arguém mais brabo qui eu aqui neste fim de mundo?
Aí mineirinho, o dono do boteco, não agüentou. Levantou do seu banquinho de detrás do balcão e, muito macho, mas, de mansinho, falou pro visitante enquanto acariciava o cano duma garrucha tão lustrosa que até brilhava:
- Num tem não sinhô! Os brabo qui vai chegano aqui a gente vai cuzinhano e tratano dos urubu!
O homem da cara de mau deu um sorriso amarelo, tomou o restinho da pinga e foi saindo de fininho, assim meio de fasto. Naquele dia os urubus não iriam ter banquete.

10/08/2008

Namoro em Tempo de Frio

Zé Mané sai de Tabuí. Baile na roça. E arruma namorada. Fazendeirinha bem ajeitada, novinha ainda, toda limpinha e cheirosa. Moça muito distinta e recatada....Tantos predicados deixam o Zé na maior paixão.
- Se ocê quisé memo namorá ieu tem que falá com o pai.
O rapaz fica desanimado. Mas depois de alguns dias, várias noites sem dormir, conclui com seus botões:
- Ela é moça boa demais da conta. Vô lá resorvê o pobrema.
Mandou recado. Vestiu a melhor roupa, calçou botina gomeira e foi rever a paixão e enfrentar o velho, futuro sogro. Andou horas e horas até chegar ao destino. A família recebe bem o nosso Zé Mané. Velho pega na mão, bate nas costas, velha chama-o de meu filho, paixão fica segurando sua mão e as três irmãs se derramam em sorrisos. Tudo era ânimo. Os dois apaixonados combinam, num momento em que conseguiram ficar a sós, que a conversa de homem pra homem seria no dia seguinte, na hora do almoço. Tudo muito bem, tudo muito bom, noite chegou. Era junho. Tempo de frio. O Zé, como não previa passar a noite em casa alheia, nem uma blusa trouxera.
- Tô sentino frio não, gente! Sô assim memo, num sinto frio!
A desculpa não colava, mas o rapaz não queria dar o braço a torcer. O negócio era impressionar. Queria dar uma de macho e, no seu conceito, macho que era macho não sentia frio.
A moça mostra-lhe o quarto e leva-lhe cobertores.
- Não, amô! Carece disso não. Nem lençor eu uso! Durmo só de cueca!
Donzela fica corada ao ouvir essa palavra indecente.
- Mas assim cê intangue, bem!
- Que nada. Tiau, amô! Té manhã!
Zé Mané fica sem os cobertores, tão quentinhos. Tira a roupa e, para honrar a palavra, fica mesmo só de cueca esperando o sono chegar. Mas o frio tava brabo e ele, tremendo, não consegue pegar no sono. Rola pra lá e pra cá, com raiva da sua burrice, até que se lembra do monte de palha de feijão lá no terreiro da sala. Pula a janela e tafuia dentro do monte pra afugentar o frio que lhe entrava até os ossos. E, de fato, lá embaixo, tava tão quentinho, que ele dormiu sono profundo. Tão profundo que o dia amanheceu e ele nem tium. Continuou lá, todo encoberto, só com a ponta do nariz num buraco por onde entrava o ar. Lá fora, tudo gelou por causa da geada que chegara de madrugada.
O pai acordou, mãe também e as quatro filhas. Sol mal dava as caras.
- Bamo lá botá fogo na paia de feijão pra mode a gente esquentá, mininas? Chamou o pai.
E lá se foram e meteram fogo sem dó nem piedade na palha de feijão. O fogo rodeou todo o monte, pegando com certa dificuldade, pois estava meio úmido devido ao orvalho. Por isso o fumacê que começou a sair dali não tava no gibi. E a fumaça foi entranhando pro meio do monte e o calor do fogo também. O Zé Mané, ainda dormindo, começa a ficar prejudicado pela fumaça e pelo calor. Sufocado e suando, acorda. Sem entender nada, o instinto de sobrevivência avisa que ele tem que cair fora. Assustado, dá um pulo, fica de pé levantando cinza e fumaça e o fogo começa a chamuscar-lhe a pele. Zé Mané sai correndo empretecido, quase pelado, só de cueca vermelha, desbotada, levando junto um canudo de fumaça e fogo. As moças, cada uma mais santa e donzela que a outra, são pegas de surpresa e não entendem nada. Nem reconhecem o moço. E vendo aquela figura estranha e inesperada saindo do meio do fogo, caem de joelhos, prontas para rezar, pensando estar vendo coisas do outro mundo.
- É o demônio! - Gritou uma.
- É o capeta, mãe! - Gritou outra.
- Livrai-nos Deus, Nosso Senhor! - Berrou a mãe.
Zé Mané nem no quarto passou. Cheio de vergonha, ainda sem entender direito o acontecido, se mandou estrada a fora e só foi descobrir que estava nu ao entrar em Tabuí, vaiado por um bando de moleques.

Novidade chega na Mutuca


Cê pensa que Tabuí é um fim de mundo? É não. É que ocê não conhece a Ingrizia. Lá, sim. É onde o vento encosta o cisco. Tem pra mais de vinte anos que dezenove pessoas moravam na Ingrizia e, embora o povinho de lá comece cedo a fazer nhanha, - já que a outra única diversão é pescar -, a cada um que nasce, dois ou três vão embora. A população de Ingrizia, hoje, resume-se a treze pessoas: o Lazo, a Fiíca, os sete filhos e mais quatro gatos pingados que não acharam pra onde ir.
Ingrizia fica lá pras cucuias, no entremeio da Serra do Urubu, prensada entre esta e o Rio Sorongo. Do lado que podia morar mais gente, sem tanto morro, é mata fechada, onde não andam jumento e nem bode. O caminho para chegar na Ingrizia é uma tortuosa trilha, de mais de quatro léguas, subindo e descendo morro, cortando brejos e tafuiando pelas matas. O povo de lá é tão acostumado a viver só que, quando chega gente de fora, fica assustado e se esconde. O visitante corre o risco de chegar naquelas bandas, - isso se não errar a trilha -, e não achar ninguém.
O Lazo, com sua turma, passava anos se ir à cidade. Dos filhos, só os dois mais velhos, Guinel e Laíde, conheciam Tabuí. Semana Santa. Lá vão eles, com roupinha de ver Deus, em fila indiana, trilha a fora, ainda de madrugada, para participarem da procissão do Senhor Morto, organizada pelo padre Anacleto, pro comecinho da noite. Parada só num córrego ou noutro para beber água, molhar os pés e lavar o suor do rosto. Com cuidado para espantar as piranhas e as arraias e pondo sentido para evitar o ataque da sucuri traiçoeira. Se algum filho parava para catar araçá, gabiroba, coquinho, ovo de passarinho ou algum galho de peidorreira, depois tinha que correr atrás e, segundo ordem do pai, ficar no final da fila.
- O úrtimo da fila é quem a onça sorratera pega premero, viu?
Por medo, ninguém queria ficar pra isca de onça e só paravam mesmo quando a fome apertava demais da conta ou quando o de comer era pra lá de apetitoso. Paravam também por outros três motivos: pras necessidades, - todo mundo de uma vez -, cada um atrás de uma moita; para comer a matula de frango com farinha de mandioca, na beira da Lagoa dos Valérios; ou para rezar, ao pé de cada cruz, um mistério do terço. Chegavam na cidade de terço garantido, uma vez que passavam por cruzes que assinalavam cinco mortes no caminho, uma de morte morrida, outra de morte matada e três por morte d’onça. Mas, naquele dia, assim que terminaram as quatro léguas da trilha e entraram na estrada esburacada de carro de boi, - com mais duas léguas chegariam a Tabuí -, logo no começo, uma cruz nova, de peroba. Rezaram mais um mistério do terço. Nem bem andaram trinta metros, outra cruz. Mais um mistério. Logo depois, outra. Todas de peroba. Outro mistério. E não parava de aparecer cruz... cruzcredo! Enfileiradas. A cada trinta metros, mais uma. Aí o Guinel protestou.
- Pai, já rezemo quatro terço e num pára de aparecê cruiz... assim nóis vai chegá pra procissão só amanhã!...
Lazo resolve olhar melhor as últimas cruzes e as achou estranhas. Bem diferentes das antigas, pois que tinham o pé comprido demais, desproporcional aos braços e à cabeça, muito curtos.
- Gente, vamo pulá uma cruiz ô outra! O Guinel tá certo. Num vamo rezá em todas não... que me descurpe cada falecido...
Foi aí que apareceu outro ingrediente na história. Amarrados nos braços de cada cruz, a partir do Capão dos Óculos, - coisa esquisita -, dois fios de arame ligando uma à outra. Aquilo foi muito curioso, novidade de primeira, foi bão demais da conta pra meninada e apressou a caminhada de todos, pois, quando chegavam numa cruz e viam que tava amarrada com o arame, corriam pra seguinte e pra seguinte a fim de terem certeza de que o arame continuava.
- Ôta arame cumprido, pai!...
Então o Lazo entendeu tudo.
- Muié! Fios! Vamos cortá a rezação! Isso daí num é cruiz! É a tal de luiz eletri qui vi dizê qui tá chegano lá na Mutuca. Essas cruiz pareceno girafa deve sê pra sigurá esses arame que vai acendê a luiz da Mutuca... bãobora digero quisinão a gente num bamo vê nem chero de procissão!...