29/05/2008

Falta de assunto

Um dia Zé Ruela arrumou namorada em Tabuí. O rapaz era da roça, mas não perdia festa na cidade, doido pra arrumar uma doida e se ajeitar na vida. Só que Zé Ruela era fraco de inteligência e muito tímido. Ficava sem assunto em presença de rabo de saia. Mas sabia que, com moça da cidade, tinha que ser conversador, tinha que passar a lábia, senão a pretendida desistia.
Primeira vez que foi à casa da moça. Um sufoco. Vestiu sua melhor roupinha, colocou botina gomeira e botou perfume no cangote. Andou bem mais de uma légua até Tabuí. Chegando à casa da distinta, foi apresentado aos pais, pôs as mãos no bolso e não sabia mais o que fazer. Ainda bem que ela pegou cadeiras e foram os dois para a porta da rua, para ficarem mais à vontade. Zé Ruela, doidinho para agradar, caça assunto em tudo quanto é cantinho da cuca e não acha. Cérebro embotado. Até que surge uma idéia que ele, sem nem pensar muito, casca na namorada.
- Cê já viu onça?
- Eu não!
- Socê vê, cê caga!...
A moça deu um sorriso amarelo e começou a achar que entrara numa canoa furada. O Zé, sem desconfiômetro, acreditou que estava agradando. Mastiga outra idéia na cuca e solta:
- Cê já foi mordida de cobra?
- Eu não! Credo!...
- Dói!...
A namorada, agora com certeza de ter entrado em canoa furada, começa a pensar numa maneira de descartar o Zé Ruela. Mas ele ataca de novo:
- Lua bonita, né?
- É...
- Boa pra gente andá no cavalo do vizinho, né?
Nessa hora ela não resistiu e deu uma risada. Teve dó do desajeitamento do rapaz. E ele, pensando que estava por cima da carne seca, comete um atrevimento. Pega no dedinho mindinho dela e fica balançando pra lá e pra cá. A moça, querendo ver no que ia dar, deixou. E Zé Ruela fica lá, balançando o mindinho da moça enquanto assunto não aparecia. Finalmente, cúmulo da intimidade, olhando pro dedinho dela, fala:
- Benhê!... Eu te quebro o dedo!...
A moça, que não esperava por um papo desse tipo, desafia:
- Então quebra!
E ele:
- Trac!!!...
Quebrou o dedo da donzela e acabou um namoro que mal começara.

21/05/2008

Procurando a Alma Gêmea

Aristeu estava separado da esposa. Desquite já em fase final. Casara jovem e não pôde fazer muito proveito da vida de solteiro. Agora, já quarentão, começava a curtir novamente a solteirice, ao mesmo tempo em que pensava em recompor a vida ao lado de outra companheira. Por isso, trajava-se e comportava-se como um rapazinho evitando, contudo, o espelho, para ignorar sua feiura. E sentia-se bonitão.
- Vou procurar minha alma gêmea, a minha outra metade!
Não perdia bailes, festas, aniversários, casamentos... Nesses ambientes jogava todo seu charme. Só que não fazia efeito. Mulher nenhuma correspondia aos seus desejos. Desanimado com a falta de resultados, deixou a badalação e enclausurou-se num desconfortado quarto de sua casa. Lá foi curtir a solidão. Seu único companheiro era um rádio Semp, movido a pilhas, com quatro faixas de ondas. Numa noite estafante, sintoniza uma rádio daqui, outra dali, até que acha uma da capital. O programa do horário era “Namoro pelo Rádio”.
Aristeu mudou o estado d’alma. Ficou de ouvidos em pé. Pegou caneta e papel. Tomou nota do nome de uma solteirona de 42 anos, morena, olhos castanhos e cabelos pretos. Profissão: doméstica. Sua preferência era por um homem do interior.
O candidato Aristeu, com nome e endereço da coroa, ia agora tentar a sorte: escrever. Na carta não foi sincero. Descreveu uma falsa imagem. A carta chegou ao destino. Marli, - era o nome dela -, topa a parada. Pede uma foto. O mancebo sentiu-se apertado. Escreveu carta afirmando com bastante convicção que desde criança tinha aversão por fotografias e que delas só tinha más recordações. Principalmente das últimas que havia tirado ainda jovem: quando do casamento fracassado e a outra quando posara ao lado do pai, que veio a falecer poucos dias depois. Dizia ainda que havia destruído as poucas fotografias que possuía e as únicas que ainda tinha estavam pregadas em seus documentos.
A moça Marli leu a carta e acreditou no moço. Respondeu que uma simples fotografia não impediria o namoro. Estava ansiosa para conhecê-lo e queria saber do dia que poderia dar uma esticada até Tabuí para vê-lo pessoalmente.
O quarentão marcou o encontro para um dia de sábado do frio mês de junho. A moça confirmou sua viagem na data marcada. Sairia da capital por volta de meia noite e chegaria em Tabuí às cinco e meia da madrugada. Aristeu a esperaria no bar que também servia de rodoviária.
Eufórico, ele comentava com todo mundo o dia e a hora da chegada da futura namorada que viria da capital.
Chegou o dia tão esperado. Às quatro da madruga Aristeu já estava de pé. Vestiu o terno, barbeou-se, usou o melhor perfume, penteou-se e foi pra rodoviária. Pelas ruas foi convidando quem encontrava para assistir ao encontro.
O ônibus chegou com quase uma hora de atraso, deixando o Aristeu preocupado. O motorista abre a porta e os passageiros descem. De repente uma morena esbelta, de cabelos pretos e curtos aparece na porta do ônibus. Era ela, a Marli. Desceu e foi em direção a um grupo de mais ou menos dez pessoas e perguntou:
- Qual de vocês é o Aristeu Benedito da Costa?
O quarentão estufou os peitos, meteu as mãos na cintura, olhou a reação dos companheiros e falou todo orgulhoso:
- Sou eu, uai!
A quarentona fez um instante de silêncio, mirou-o da cabeça aos pés, torceu o nariz e perguntou meio assustada:
- A que horas sai o próximo ônibus para Bel’Zonte?

14/05/2008

História a seis mãos


Hoje quero convidar os meus visitantes para conhecerem uma história escrita a seis mãos. Foi há uns dez anos, quando três componentes do grupo de discussão literária, o Letras e Cia., nos juntamos para fazer uma brincadeira com os membros do mesmo. O texto é dividido em cinco partes escritas pelo JPVeiga, pela Érica Antunes e por mim. Quem se aventurar a ler a brincadeira, vai ver que a história, embora escrita por três pessoas, tem um encadeamento e uma seqüência que são lógicos e hilariantes. Pela primeira vez virei personagem. Os links para cada parte vc pode encontrar logo abaixo do calendário, na coluna central (e não no arquivo do blog), onde está escrito “A Embolada das Letras”. Boa leitura!

10/05/2008

Perdido no Mundo

Aruerinha era doido por feijoada. Andava léguas e léguas quando tinha notícia de uma, principalmente se fosse boca livre. Foi por isso que saiu de madrugada para a Fazenda Boi Atolado onde haveria entrega de folia de Reis. Na hora do almoço o sol tava de rachar. Mas Aruerinha não perdoou. Comeu cinco pratadas da sua comida predileta e tomou umas boas talagadas da água que passarinho não bebe. Tudo de graça. E caiu no mundo com a pança cheia. Queria chegar em casa antes de escurecer.
Só que Aruerinha, com aquele calor todo, suando em bicas, foi sentindo um empanzinamento, umas tonteiras, uma ruindade danada. Aí teve que parar na sombra fresquinha duma pindaíba. Foi vindo aquela zonzeira estranha e o homem caiu no sono enquanto a feijoada seguia seu curso nas entranhas do Arueira.
Lá pelas tantas ele acorda. Tonto, deslocado no mundo, com os gases da feijoada fazendo efeito no intestino e pressionando o cérebro. Sem entender o que estava acontecendo, Aruerinha apela para um pessoal que estava passando e que também vinha da festa:
- Gente! Quem co sô? Oncotô? Poncovô?

Novidades da Cidade Grande

João Geada. Velhinho roceiro. Morava no Pindura Saia, a umas três léguas de Santa Maria do Tabuí. Branquicento. Sistemático. Todo caladinho e muito trabalhador. E tinha que trabalhar muito, pois, na base do silêncio, conseguiu, com a sua Jandira, fazer quase uma dúzia de barrigudinhos. Tratar de toda aquela cambada não era fácil.
Certo dia velho Geada inventou de ir à capital. Visitar Bel'zonte vez primeira. Fazer umas comprinhas. Isso vinte ou trinta anos atrás. De trem de ferro. Achou tudo muito bom, muito importante, muito bonito. Cada predião danado. Povão medonho na rua. Uma carraiada de dar gosto. Tanto movimento que o velho Geada tava até ficando meio agoniado. Mas uma coisa deixou o nosso amigo muitíssimo impressionado: o picolé. Gostou exageradamente daquela pedrinha fria que derretia e que tinha um pauzinho enfiado no trazeiro. Chupou um, dois, uma dúzia. De gostos e cores variadas.
- Ô trem bão, sô! Tem base não! Vô até levá uns pra Jandira e pros minino, uai! Imbruia uns vinte aí, ô moço!...
Saiu satisfeito com o pacote de picolés dentro de um saco, junto com os troços que tinha comprado e foi pra estação pegar o trem. Viagem de mais de cem quilômetros. Deixou o saco perto da porta do carro de passageiros e procurou um cantinho pra se sentar. Queimou um pitinho, deu umas proseadas com uma velha gorda que o espremia no canto do banco e um coque na cabeça dum neguinho que pisou no calo do seu mindinho do pé.
Numa certa hora, João Geada resolveu dar uma esticada nas pernas e foi ver se estava tudo em ordem com o seu saco de bugigangas. É claro que os picolés tinham virado água, molhando tudo que tava no saco, derretendo até o quilinho de açúcar que viajava junto. Tudo melecado e aquela água melada escorrendo. Velho Geada entendeu nada. Ficou foi brabo. E mesmo sendo um homem caladinho e tímido, não levava desaforo para casa. Foi por isso que, fulo da vida, gritou pra todo mundo ouvir:
- Cambada de viado fedaputa ! Além de chupá meus picolé ainda mijaro no meu saco!...

04/05/2008

Historinha do Zebedeu

Zebedeu, aos trancos e barrancos, lutando com a pobreza da vida, chegou aos dezoito anos. Penugens esparramando pelo rosto, voz de taquara rachada, muque crescendo e vontade de mulher arrebitando as calças. Idade da responsabilidade e hora de decidir o que fazer da vida. Sonho de ser cantador de moda caipira era segredo bem guardado no coração. Revelava a ninguém. Ririam na sua cara. Afinal, nem um pandeirinho sabia tocar e quando aventurava uma cantigazinha era mais desafinado que filhote de urubu em dia de inspiração. Negócio era ir empurrando com a barriga. Até que apareceu a chance de servir ao glorioso Exército Brasileiro.
Pai falou:
- Vai, fio. É profissão boa. Ingaja lá c'os home qui'ocê pode virá dipressa arguém na vida. Demora poco cê vira cabo, sargento...
- Mas, pai, eu tô quereno istudá!...
- É mais mió cê tê profissão primero, fio! Istuda depois qui'ocê tivé dinherinho no borso!
Zebedeu craniou, craniou... Sonhou com a farda verdinha... Aquele montão de medalhas no peito... Carrinho novo... Mulherada dando sopa... Decidiu ir. Seja o que Deus quiser. Na véspera tirou um sarrinho com a namoradinha banguela. Lambuzou a moça toda de beijos, juntou umas roupinhas numa caixa de papelão, largou Tabuí e se mandou pra Divinópolis virar soldado.
Primeiro dia de engajamento, sargento Pedro, vulgo Pedrão ou Besta Quadrada, coloca todo mundo perfilado e pede que cada recruta dê um passo à frente e se apresente, com voz bem forte, dizendo nome, terra de origem e profissão. O sargento, embora burro, era milico organizado. Anotava tudo no livrinho verde.
- Marcolino dos Santos, de Santana dos Brejos, datilógrafo!
- Manuel Procópio de Jesus, de Uruburetama, roceiro... Aliás, discurpe Sargento! Lavradô...
- Almir S. Pinto, o Mi, de Alpercatas, mais conhecida como Precata! Sou estudante, sargento Pedrão!
O sargento ficou meio sem graça ao descobrir que seu apelido já era conhecido da nova turma e como não gostou da desenvoltura do recruta, resolve dar o troco:
- Esse S. aí do seu nome, por um acaso quer dizer "Sem"? E olha, senhor Almir, estudante não é profissão!
O rapaz, todo respeitoso, cheio de medo e envergonhamento, consegue dizer:
- Tá bão sô sargento! Discurpe ieu! Bota aí entregador de leite, leiteiro, se o senhor quisé, tá?! E o S. é S. de Silva, reverendo Pedrão!
- Seguinte!
- Esmeraldo de Jesus Cançado, de Pindura Saia! Pescador!
- Gerardo Tadeu, de Cráudio! Pedrero, sô sargento! Pedrero fazedô de casa!
- Ô lambisgóia! Gerardo Tadeu de quê?
- É Gerardo Tadeu só, sô sargento!
Sargento escreveu no livrinho: Gerardo Tadeu Só.
- Onofre Montesquieu da Silva, mais conhecido como Quézinho, do Morro do Tira Prosa, estudante!
- Já falei que estudante não é profissão! Berra o sargento com aquele vozeirão de trombone. Recrutada inexperiente até tremia nas bases a cada grito do sargento Pedrão.
- Sim excelência, desculpe! Digamos que sou ator...
- É cada doido que me aparece!... Seguinte! Cambada de palerma!
- Zebedeu Pancrácio Assunção, de Tabuí...
- E a profissão, seu burro!
Sargento, todo vermelhão, trepando nos tamancos, não estava para brincadeira. Zebedeu, como sabia que o sargento ia ficar fulo da vida se dissesse que era estudante, resolve não chamar as iras sargentais sobre seu costado.
- Siguinte, sargento, eu... Eu... Ajudo meu pai, sô sargento!...
- E o quê que seu pai faz, seu desgraçado?
- Ele?... Meu pai é... Bem ele... É ajudante de fiscal da Coletoria Municipal!... Aposentado, sô sargento!...

Escrever é difícil


Escrever, muita gente escreve. O difícil é escrever certo. No nosso caso, blogueiros que somos, a correção com que escrevemos vai dar maior ou menor credibilidade ao nosso blog. Pode até ser que o blogueiro seja o maior entendido num assunto, mas se não escreve de forma clara ou se apresenta um texto com erros gramaticais ou de grafia, perde pontos. Alguns não ligam para isso. Para os que têm interesse, cito algumas frases soltas que peguei num ou noutro blog a fim de ilustrar o que digo.


“Se o seu blog visa agradar à um público maior...”
O correto é: “Se o seu blog visa agradar a um público maior

“... que tenham haver com os assuntos tratados nele”
O correto é: “que tenham a ver com os assuntos tratados nele

“Eu escrevo em um site, que não é relacionado à blogs”
O correto é: “Eu escrevo em um site que não é relacionado a blogs

“... se a senha e o usuário estiverem em corretas...”
O correto é: “se a senha e o usuário estiverem corretos

“.... desculpe o encomodo mas é que não entendo nada disso, e nem conheço nimguém que entenda do assunto por isso, estou recorrendo a vocês, espero que me ajudem, e des de já muito obrigado pela atenção...”
O correto é: “desculpe o incômodo, mas é que não entendo nada disso e nem conheço alguém que entenda do assunto. Por isto, estou recorrendo a vocês e espero que me ajudem. Desde já muito obrigado pela atenção

“... era de sites assim que eu estava precisando a mto tempo para poder desenvolver minhas coisas...”
O correto é: “era de sites assim que eu estava precisando há mto tempo para poder desenvolver minhas coisas

“É sempre um agito quando ele atualiza e isto, ocorre há cada 03 meses...”
O correto é: “É sempre um agito quando ele atualiza e isto ocorre a cada 03 meses

“Fulano me presenteou essa semana com um selo.”
O correto é: “Fulano me presenteou nesta semana com um selo


Vejam bem. Não quero ser o dono da verdade, não quero ofender, muito menos dar lição a alguém e nem ensinar Pai Nosso para o vigário. Só estou fazendo uma constatação e jogando no ar. O objetivo é alertar para que escrevamos melhor. Talvez haja falta de atenção, às vezes é uma questão de estilo ou uma adequação ao linguajar popular, como nos meus causos. O que devemos evitar é errar por descuido ou por ignorância. Muita gente lê o que escrevemos, até crianças e adolescentes. E podem, muito bem, passar a acreditar que o errado é que é o certo.

03/05/2008

Uma Certa Menina do Interior

Ozária morava no Tabuí. De família pobre, como pobre era a cidadezinha. Mas Ozária tinha um sonho e resolveu colocá-lo em prática para mudar de vida. Decidiu ir pra capital. Ganhar a vida como empregada doméstica. Ser doméstica na capital não era coisa pra qualquer uma não. E lá se foi Ozária, vestidinho de chita, precata roda, trança no cabelo preto amarradinho na ponta com palha de milho e uma maletinha de papelão com umas bugigangas variadas.
Ozária batalhou na capital. Passou um ano. Passaram dois. No terceiro, não resistindo às saudades, resolveu voltar à terrinha. Dia marcado, tava Tabuí em peso esperando por ela naquilo que era um arremedo de rodoviária. Um frejo danado. Todo mundo queria ver Ozária que, segundo se dizia a boca pequena, tinha mudado na vida.
Quando chegou a jardineira do Valdino tudo se fez silêncio. Cada um queria ser o primeiro a avistar a Ozária. Parece que a cidade só tinha homens. Cada qual se virava como podia. Os de trás na pontinha dos pés, pescoço esticadinho, mãos apoiando nas costas do companheiro da frente. E ela, só para fazer suspense, foi a última a descer da jardineira. Tão diferente estava a moça! Cabelinho curtinho tingido de amarelo. Ruge no rosto. Batom vermelhão nos beiços. Brincos com argolões nas orelhas. Pinta pintada bem grandona na bochecha esquerda. Vestidinho decotado, deixando livre mais da metade da peitaria e, curtinho, quase mostrando as coisas de baixo. Alguns da platéia depois juraram que a roupa de baixo era vermelha. Nas costas um ziper, daqueles que abrem de cima a baixo rapidinho. No peito esquerdo o desenho de um coração com uma setinha e uma frase estranha, desconhecida daqueles olhos gulosos: "I love you". E para completar, Ozária usava uns sapatos com saltos dessa altura. E aquele bumbum arrebitado, que tinha já provocado muitos sonhos entre a machaiada de Tabuí, estava mais arrebitadinho ainda. Era outra Ozária. Pelo jeito, tinha mesmo mudado de vida...
O povão começou a gungunar baixinho, uns a olhar para ela com olhos de fome, outros com um risinho de gaiato brotando no canto da boca até que um mais animadinho resolveu, sob o olhar curioso e angustiado de todos, num suspense danado, perguntar o que queriam saber mas não tinham coragem para dirigir a palavra a uma donzelice tão distinta:
- Oi Ozária, cê tá tão diferente, né?
E ela, candidamente, dando uma empinadinha, ajeitando a bolsinha no ombro e olhando pro alto, com desdém para todos os machões, respondeu:
- Hã! Hã!... Emputeci!...