30/04/2008

As Medidas Perdidas

Zequinha Faria tava pra lá dos 70 anos e tinha a vista cansada. Não acertava com os óculos comprados sem receita médica. Era famoso pela humildade e pela desordem que imperava em sua sapataria, a mais antiga e tradicional de Tabuí.
Mesmo desorganizado, os fregueses não o abandonavam devido aos preços camaradas que ele cobrava pelos serviços. Geralmente seus calçados eram feitos sob encomenda e sob medida.
Um dia chegou à sapataria o senhor Tonico Teixeira, lá das bandas da fazenda Toatoa. Tonico Teixeira, também pra lá dos 70, era homem sério, de semblante rude e voz arrogante. Cumprimenta o velho Zeca, pergunta pela noiva e pela data de casamento.
- Compade Tonico, a data do casamento só depende do meu irmão, o Padre Faria, que a quarqué hora entra de férias lá em Bambuí. Aproveitano sua pergunta, inté vô te convidá pra ocê ajudá a me amarrá!
- Uai, compade Zeca, é todo meu prazê! Inté vai interá trêis veis que ti apadrinho, né memo? Antão, compade Zeca, vamo aproveitá e tirá a midida dos meus pé procê fazê uma butina bem bunita pro dia do seu casório!
Tonico Teixeira tinha os pés curtos e esparramados, formando um semi-círculo. Zequinha pegou caneta, papel e fita métrica. Media os pés do seu compadre e cautelosamente anotava as medidas, coisa que outros sapateiros da cidade não se aventuravam a fazer. Eram sabedores de que não encontrariam formas adequadas para aqueles sofridos pés.
- Quando é que fica pronto, compade Zeca?
- Daqui uns 15 dias tão prontos compade Tonico!
Passados os 15 dias, tá lá o velho Tonico na porta da sapataria.
- Pronto, compade?
- Não!
- Pra mode quê?
- Perdi as mididas.
- Antão nóis tira otra, cumpade Zeca!
Tiraram outras medidas e marcaram o dia da entrega. Novamente o desorganizado sapateiro perdeu o papelinho onde anotara tudo. Começou a pensar nos coices, na arrogância e no falatório do compade. Fazer o quê? Numa breve reflexão, lembrou-se de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. A solução veio na hora. Pegou um prato esmaltado, um pedaço de vaqueta, afiou a faca, colocou dois óculos no seu rosto magricelo, olhou pra frente, olhou pros lados e falou:
- Seja o que Deus quisé!
Meteu a faca na vaqueta, cortou-a na forma do prato, solou os cortes, colou os saltos e pronto. Estavam prontas as benditas botinas. Pareciam uma rodeira. No dia marcado chega o velho fazendeiro.
- Tão pronta as butina, cumpadre?
- Tão!
- Antão dexa eu isprementá, pra vê si é preciso de currigi!
O carrancudo fazendeiro enfiou os pés nas botinas, deu uma volta, repetiu o desfile, parou, olhou admirado pra elas, levantou os olhos em direção ao compade Zeca e falou:
- Cumpade Zeca, sê organizado! Num perca essa midida! Ancê tem mão de fada pra tirá uma midida!
O velho sapateiro, com voz pausada e tímida, respondeu:
- Num tem perigo, compade Tonico ! Enquanto existir prato esmartado pra vendê, num vai fartá midida pros seus pé!

27/04/2008

Aqui o buraco é mais embaixo

Zeca da Esmeralda vivia pra baixo e pra cima medindo rua. Fugia do trabalho igual diabo da cruz. Andava de cacete às costas, procurando quem inventou o serviço, para matá-lo. Vivia do dinheirinho que a mãe ganhava lavando roupa pra quase todo mundo remediado de Tabuí. Zeca usava umas roupinhas surradas, nunca de acordo com a moda. Sempre na rabeira. Só os cabelos é que estavam dentro dos conformes pr'aquelas épocas. Grandes. Um verdadeiro mafuá, onde até piolho pensava duas vezes antes de neles fixar residência. Não podia se dar ao luxo de cortá-los uma vez por ano. Sapatos pés do Zeca nunca tinham tido prazer de encher de chulé. O máximo que conseguiram foi preencher a chinelinha havaiana já com a sola fina de tanto uso. Dentes do Zeca da Esmeralda, uma cacaria de dar dó. Cada um, uma cratera cheia de dor. Raspas de casca de goiabeira é que davam certo alívio. Banho? Só quando chovia. E a seca na região tava braba. Por isso e muito mais, o cheirinho do rapaz era tão suave quanto cheiro de gambá com depressão. O moço era feio... Mais feio que vira-lata quando briga na carvoeira.
Mas Zeca não era dono só dessas qualidades não. Tinha mais. Era cantador. Cantador dos bons. Abraçado a um violão, dedilhando as cordas de aço e soltando aquela voz aveludada, já fez muita moça de Tabuí suspirar profundo em solitárias noites de serenata. E o rapaz já emprestara, dentro do confabulamento, sua voz afinadíssima pra muito garanhão das redondezas. Daqueles que queriam agradar à presa cantando, embaixo de uma janela, altas horas da madrugada, sem ninguém ver. Zeca da Esmeralda ligava muito pra esses detalhes não. Por isso era dono de tantos segredos e sabedor de tantas paixões proibidas. Bastava-lhe a pinguinha para esquentar o peito e molhar a goela. Tinha nada no coração que o incomodasse e seu pensamento era mais leve que vôo de tiziu. Zeca não conhecia mulher. Nem a Zildete que satisfazia todos os homens sem mulher - e até com mulher - da cidade. Sua maior preocupação, em se tratando desses assuntos, era com as mãos que de repente poderiam ficar cabeludas.
Mas um dia Zeca mudou. O amor bateu naquele peito bruto. Ele que nunca amara, que não tivera ainda olhos de mulher presos nele, começou a sentir negócio estranho no coração. Um embondo gostoso tomando conta, chegando sem avisar... E quando viu, estava preso por laços de paixão.. Não era amor qualquer não. Por sirigaita de canto de rua não. Era amor por gente fina. Moça prendada. Cheia de grana e de bois. Filha de fazendeiro. Donzela se encantara com a voz do moço, com seus olhos carentes e a conversa fácil. Encantamento mútuo.
A paixão foi tanta que Zeca, contra todos os seus princípios, arrumou emprego de cidade. Dos mais finos de Tabuí: auxiliar de contabilidade. Cortou cabelo à escovinha, rapou barbicha e aparou as unhas. Até botinas rangedeiras, compradas no fiado, passaram a enfeitar seus pés embora sobrasse muito vago nas pontas... Nem de chuva precisava mais para tomar banho. Começou a ter cheiro de gente. Roupinha mais ajeitada. Chegou a sugerir à mãe juntar umas economiazinhas para colocar uma dentadura naquela sua boca dolorida.
- Zeca, só topo namoro se ocê falá com o pai! E ocê só faz barro na porta lá de casa se ele dé consentimento!
Aí Zeca resolveu mostrar que era rapaz sério e cheio de boas intenções. Tinha que agradar à moça de qualquer jeito, fazer bonito pro pai dela e conquistar a sogra. Tudo de uma vez. Em Deus ajudando o casamento tava no papo e a vidinha com futuro ajeitado. No domingo levantou cedo e, cheio de coragem, vestiu a roupinha de ver Deus: calça rancheira, camisa volta-ao-mundo... De botinas foi à fazenda conhecer sua futura propriedade e pedir a danada da autorização para o namoro. Ligeirinho, que nem peba pisando em areia quente. Mas quanto mais perto da fazenda, mais a coragem ia minguando.
Chegou mais suado que tampa de chaleira e a primeira pessoa que encontrou foi a futura sogra. Gorda igual melancia bem adubada. Velha. E calada, mais calada que sino em semana santa. Mas quando Zeca viu o candidato a sogro, aí deu vontade de achar um buraco para tafuiar e nunca mais aparecer. Velho sistemático, com cara de quem amanheceu espirrando canivete, encarou o rapaz de alto a baixo, desde a ponta do cabelo desobediente até as botinas com o bico empinado, passando pelos caquinhos de dentes enfeitados de meleca, o bigodinho meio torto, a camisa mal passada e o cinto de couro cru furado a ferro quente. Rapaz tava mais perdido e sério que cachorro vira-lata dentro de canoa. Mais magro que gato de tapera. Tudo o velho viu num relance enquanto enrolava o bigodão com o polegar e o indicador da mão esquerda. Mãozona direita de vez em quando ajeitava o cabo dum trabuco meio escondido entre as banhas da cintura. Ninguém por perto. Amada lá fora, no alpendre, esperando com ansiedade as boas notícias.
- Qual é sua graça rapaz? O que ocê faz rapaz?
Foi o que primeiro quis saber de supetão o dono da propriedade, o sonho do Zeca da Esmeralda. Este, sem muito desconfiômetro, até meio animado com o tom das perguntas, satisfeito por ter sido o velho a começar a conversa, recobra um pouco as forças perdidas e responde com certo orgulho no peito, abrindo-se que nem livro de missa:
- Eu sou o Zeca, uai!... Aliás, José Cristóvão!... Antes eu só vivia de zonzeira, agora tô num escritório. O escritório de contabilidade!... Lá em Tabuí!
- E a bufunfa? Enche o bolso? É salário compensatório? Quanto ganha?
- Óia, sem necessitá carecê de muita sinceridade, num é pra mim gambá não, mas ganho o salário mínimo sim sinhô!...
- Puta que pariu! Salário mínimo? Salário de fome? Se manda, pé rapado! Tem autorização minha não! Nem quando galinha ciscá pra frente! Essa merreca não dá nem pra comprar o papel higiênico que ela usa!
O velho estava nervoso demais, até cuspindo na carinha vermelha do rapaz. Zeca saiu fungando igual pinto com gogo, cego de raiva, chutando até a sombra. Humilhado. Ao passar pelo alpendre, vê a moça esperando ansiosa, com olhos perguntativos, pela resposta do consentimento. Olha-a com desdém, levanta uma sobrancelha, faz covinha no rosto e tasca o maior xingamento que lhe foi possível no momento:
- Sua cagona!!!

Jacaré do papo amarelo


Tava o Toinzim e o Mirim pescando ali no pantame. Muriçoca era mato. Mutuca e porvinha também. O Mirim doido pra ir embora enquanto o Toinzim nem tium. Negócio dele era pescar uma trairona pra levar pra cidade e fazer inveja na turma. Por isso continuava distraído, só pensando no que faria quando chegasse à cidade. Aí Mirim resolveu provocar.
- Toinzim, jacaré comeu meu pé!
Distraído, fumando um pitinho de palha, o amigo apenas perguntou:
- Qualé dês, sô?
Como Mirim viu que a brincadeira não colou, resolveu apelar.
- E eu sei lá, Toinzim! Ce num vê que jacaré é a cara dum, fucinho do otro?! Tudo iguar?!!!

26/04/2008

Azarado nem um pouquinho



Bentão arranjou namorada. Meio passada da idade mas dava ainda para uma boa meia sola. Um dia resolve ir conhecer a família da bichinha. Arreia o melhor cavalo, calça bota e espora, põe o 38 na cintura e se manda estrada a fora. Três léguas. Chega já com o sol baixo, a tempo de assistir ao futuro sogro tirar o leitinho da tarde das últimas vaquinhas magrelas.
Bentão conheceu o povo e, meio sem graça, fica por ali olhando uma coisa ou outra e até capiscando de trivela as belas pernas da cunhada. Sem assunto e sem o que fazer, resolve que tem que ir embora. É muito longe, pode chover, mãe vai ficar preocupada, tem compromisso amanhã cedo e outros babados de desculpa. O sogro e a sogra não concordam. Não querem perder um genro com tanta facilidade.
- Não senhor! Sem jantá ocê num vai!...
Envergonhado e a contragosto - mesmo com fome - aceita o convite. A sogra prepara, aliás, já vinha preparando um senhor jantar. Põe à mesa, além da toalha de crochê chique, umas louças das mais bonitas acompanhadas de muita faca, colher e garfo de montão. Apetrechos com os quais Bentão não tinha muita intimidade. Ao ir pra mesa ele nem sabia onde botar as mãos, de tão sem jeito. Mas assim que o sogro começa com seus papos de vacas e bois e cavalos e roça e pescarias e diabo a quatro, o Bentão fica mais animado e chega até a dar um bom desfalque no comestível. Bom mesmo Bentão achou aqueles catocos de suã. Nunca os tinha comido tão gostosos. Pena que tinham mais osso que carne. E aquele miolinho!... Ah! Aquele miolinho!... Bentão não resistiu. Num instante em que não tinha ninguém olhando, resolve enfiar o dedo mínimo no buraco do osso para retirar o tutano, coisa de que ele gostava demais da conta, desde menino. Só que o dedo engastaiou no buraco do osso. Antes que alguém visse sua situação melindrosa, ele enfia a mão debaixo da mesa, esperando melhor oportunidade e continua a corresponder ao prosório usando uma só mão para comilança e bebelança.
Foi aí que apareceu o Leão, cachorro grandão e muito chegado num osso de suã. O danado do bicho foi logo se enfiando debaixo da mesa antes que Bentão o visse e tomasse algum providenciamento. Leão, sem nem pensar muito, abocanha aquele osso disponível entre as pernas do visitante e se propõe a sair correndo. Só que o dedo do Bentão tava ainda no meio do osso, bem preso, já meio inchado. O baque foi tão grande que o moço foi sendo puxado na marra. E aí sua espora garrou na toalha de crochê e ele foi arrastando tudo, derrubando pratos de louça com todos os acompanhamentos. Sogro, sogra e filhas assistem embasbacados à saída repentina do pretendente. Leão quase come junto com o osso um pedaço do dedo do rapaz.
Você pensa que terminou as desgraças do Bentão? Escuta só. Com vergonha e puto da vida ante tamanha desfeita, resolve ir embora sem se despedir de ninguém. Mas assim que vai montar no cavalo, com pressa e sem nenhum cuidado, o revólver se prende em não sei o quê e escapa um tiro dos mais potentes. Cavalo se assusta tanto que sai em desabalada correria deixando Bentão caído de quatro no meio da fedentina de estrume e urina das vacas. Todo melecado. O homem não vê outra solução. Saiu correndo atrás do cavalo, cuspindo fogo pelas ventas e nunca mais pôs os pés por aquelas bandas.

22/04/2008

A Sabedoria que o tempo traz

Juquinha Pandiá era homem de pouco estudo. Passou tempo curto na escola, mas conseguia rapidinho juntar as letrinhas e formar as palavras. E foi assim, sozinho, que aprendeu um montão de coisas. Lia tudo o que lhe passava pelas vistas. Até que resolveu enfrentar a Bíblia. De cabo a rabo em poucos dias. Releu. Gostou tanto que começou a freqüentar igreja com ar de autoridade. Entrou para a Irmandade do Santíssimo e depois para a Conferência Vicentina. Não perdia uma reunião para mostrar seus conhecimentos bíblicos. Virou o orador oficial das duas agremiações.
Fama do Pandiá passou a correr na cidade por causa dos seus conhecimentos bíblicos. Fazia citações de cor e salteado, a torto e a direito, menos em presença do vigário. Como ninguém se dava ao trabalho de conferir, ficava tudo por isso mesmo. De vez em quando cascava citações bíblicas nos seus discursos que viravam sermões só para ver, sentir e se gabar do seu domínio sobre a platéia. Meninos assustados se enfiando debaixo da asa das mães, mulheres chorando, homens se convertendo, casais se reconciliando, tudo por obra e graça de são Juquinha Pandiá.
Um certo dia, a grande notícia. O senhor bispo, a maior autoridade das redondezas, iria visitar cidadezinha do Pandiá. Tabuí estaria em festa. E quem melhor para saudar sua Reverência?
Juquinha preparou discurso. Vários dias antes, estava pronto para descascar a verborréia na autoridade. Senhor bispo chegou. O orador, cerimonioso, começou a soltar as palavras aos borbotões. Era depois do almoço. Sua Reverência, como tinha abusado muito do frango frito com farofa e maionese, cochilava... Na emoção de presença tão importante, não é que o Pandiá foi esquecer o melhor do discurso? E resolveu, aproveitando o cochilo de sua Reverendíssima, inventar alguma coisa para não fazer feio perante a platéia conterrânea.
- ... A vida, meus irmãos, é uma cebola que se descasca chorando, conforme está escrito em Marcos, Capítulo 20, versículo 20...
O bispo abriu um olho meio assustado... Abriu o outro também. Olhou interrogativo pro Padre Anacleto que dormia sono solto acalentado pelas palavras do Pandiá. Rapidinho a autoridade consultou umas folhas da Bíblia que tava de folga no seu colo e deu um pulo da cadeira, vermelhão.
- Mas, figlio mio, in Marcos non tene il Capítulo 20...
Juquinha Pandiá, convicto como sempre, nem deixou o bispo terminar a frase. E sem perder o rebolado, arrematou:
- Não tem, mas bem que podia ter, sua Santidade!... E, afinal, eu tô falando de cor e o senhor tá com o livrinho! Isso é deslealdade!...

Dor de barriga

Ocride tava cuns pobrema e teve que ir ver o médico mode trocar umas idéias.
- O que o senhor arrumou, seu Euclides?
- Sei não, dotô. Só sei que tô cuma disgracera duma dô de barriga que num acaba!
- Pois bem, seu Euclides! Vamos dar uma olhada nesse problema. Por favor, tire sua camisa!
- Mas, dotô! Tenho que tirá a camisa pra mode quê? O sinhô num querdita neu?

20/04/2008

Maria libera a guarda e conhece Belém

E não é que o Jacinto resolveu ir para Belzonte tentar ganhar a vida?
- Vida custosa demais da conta, muié! Quem sabe na capitá arranjo coisa mió, né?
E foi, não sem antes reunir filhos, dar conselhos e tirar o atraso com a Maria encantoando-a na cozinha em hora que a molecada tava lá pros fundos.
- Credo, Jacinto, parece que tá tarado!...
- Ói, muié, a gente vai ficá longe, tem que privini, dexá e levá sodade, sá!
Na capital, Jacinto não se deu bem. Zunhou praqui e prali e comeu do pão que o diabo amassou, lambeu beira de pinico e acabou com os cobrinhos que tinha. Menos o da passagem, claro, bem guardadinho na gibeira da cuequinha surrada.
- Mode ladrão não pegá!
No dia em que Jacinto não tinha mais como não ir embora, sem destino, igual merda n’água, só com a roupa do corpo, encontra na rodoviária um locutor de rádio. Transmitindo para o Brasil e o mundo. E o locutor vem direto pro Jacinto, quase enfiando aquele negócio na boca do nosso herói.
- Boa tarde! Como é o nome do senhor?
- É Jacinto, moço!...
- Jacinto de quê?
- Jacinto Pinto Aquino Rego...
- Taí, minha gente! Um legítimo representante do povo brasileiro, mãos calejadas, pés descalços, falhas nos dentes...
Jacinto começou a ficar preocupado vendo o homem descrevê-lo em minúcias, quase engolindo aquele aparelho. Tava assim mais desconfiado que cachorro no meio da mudança. Pensou em reclamar, mas achou que não tinha direito e calou-se. O locutor, depois de muito lero-lero, voltou a atacar.
- Senhor Jacinto, o senhor quer ganhar um prêmio?
Jacinto até esfriou a barriga nessa hora. Prêmio? De graça? É comigo mesmo! - pensou ele.
- É craro!
- Senhor Jacinto, aviso-lhe que o senhor está prestes a se tornar uma pessoa famosa!
- E daí? E o negóço do prêmio?
- Sim, senhor Jacinto! O prêmio! Para ganhá-lo, basta responder a uma pergunta. Apenas uma pergunta.
Jacinto pensou. É muita areia pro meu caminhãozinho! Uma perguntinha só? Não. Tem treta aí... só pode!...
- É pergunta difíci, moço? Perdo se eu errá?
- Não, senhor Jacinto! É muito fácil! É sobre a sua vida!
- Sobre minha vida? E isso vale dinheiro? Desde quando isso vale alguma coisa?
- Senhor Jacinto, não é bem dinheiro! O senhor pode ganhar uma passagem de ida e volta, de avião, a qualquer lugar do Brasil, com direito a acompanhante!
Rapidamente Jacinto procurou no mapa da mente um lugar aonde ir levando sua amada. De avião. Ele, de terno com gravata e ela, de vestidão... Sendo respeitado e reverenciado por todo lugar onde passasse... Comendo bife e batata frita com macarronada e bebendo guaraná e cerveja gelada... Dormindo em colchão de mola... Em Manaus... Não. Manaus não. Em Pernambuco... Pernambuco não. Era cidade muito longe... Jacinto foi escolhendo e cortando cidades da sua lista, até que ficou com Tabuí mesmo. Isto! Tabuí! Já pensou eu chegar lá de avião? É a glória. Quando ele sorria de orelha a orelha, recebe um cutucão do locutor.
- E então, senhor Jacinto?
- Heim?... O quê?
- O senhor topa participar do nosso concurso e responder nossa pergunta?
- Manda brasa!
- Então lá vai. O senhor se lembra da última vez em que fez sexo? Com quem foi e onde foi?
Jacinto engoliu seco e ficou meio engasgado.
- Não se afobe, senhor Jacinto! Os ouvintes, no Brasil e no mundo, estão atentos, querendo ouvir sua resposta. Pense um pouco!...
Aí o locutor deu aquela risada que não humilha ninguém. Só deixa o entrevistado com vontade de enfiar a cabeça num buraco. Pediu água pro Jacinto quando chamou os comerciais.
- E então, senhor Jacinto, vai ou não vai responder? Lembre-se da viagem que você pode fazer...
- Vô sim. Vô respondê!...
Dois minutos de reclame e tá de novo o locutor grudunhado no microfone.
- Senhor Jacinto! O senhor tem um minuto para a resposta!
E Jacinto respondeu.
- Eu se lembro sim. Foi com minha muié!... Lá em Tabuí!
- Muito bem, senhor Jacinto! Faltou um detalhe: onde foi?
- Mas tem que falá até isso?
- Tem, senhor Jacinto! Veja bem: são duas passagens para qualquer lugar do país...
Jacinto pensou na glória de chegar de avião em Tabuí. Venderia a passagem da mulher, compraria seu terno e gravata, uns presentes pra molecada e singraria os céus nos duzentos quilômetros até Tabuí...
- Bão!... Foi na minha casa!...
- Sim, senhor Jacinto, a gente já desconfiava disso! Na sua casa, mas em que lugar da casa?
Jacinto pensou, virou, mexeu... Viu que não tinha escapatória.
- Foi na cu-cunzinha!... - desengasgou Jacinto.
Nesse momento, alívio nos corações de muitos brasileiras e brasileiros, com o ouvido pregado no rádio. Alívio e risinhos safados de norte a sul.
- E agora, moço? Quedê a passage?
- Ainda não, senhor Jacinto! Falta um detalhe. Precisamos saber se o senhor falou a verdade. Temos que perguntar à sua mulher para confirmar a história.
- Meu Deus do céu! Ondé que fui amarrá minha égua? E tá todo mundo ouvino? Lá em Tabuí tamém? Maria vai me matá!...
- Está, senhor Jacinto! O Brasil e o mundo estão nos ouvindo. Escreve aí o telefone e o nome de sua esposa. Vamos ligar para ela!
Jacinto tinha, lá na algibeira da cueca, para emergências, o telefone da cadeia municipal. Pertinho de casa. Com o coração aflito passou o número para o locutor, que foi logo mandando providenciar a ligação durante os reclames.
- Deixa eu falá c'o'ela primeiro, moço!
- Não, Jacinto! É contra as regras do programa!
Não demorou dois minutos, o povo da cadeia municipal, ouvintes assíduos daquele programa tão cultural, já tava com a Maria ao pé do telefone, sôfrega, esperando a ligação do Jacinto. Cada um com o risinho represado, mais sem-vergonha que o outro. Telefone toca. Maria atende.
- É a Maria sim! Maria, muié do Jacinto!
- Dona Maria! Eu sou locutor do programa "Viagem pelas Estrelas"! Seu marido está aqui, quase ganhando um prêmio. Só falta a confirmação da senhora! Se a senhora confirmar, ele vai ganhar passagem a qualquer lugar do Brasil, com direito a acompanhante...
Maria cresceu os olhos. E sonhou viajando de navio de Belzonte para Belém, junto com o Jacinto. Mataria dois coelhos, aliás, dois sonhos, de uma só vez: viajar de navio e conhecer Belém, a cidade onde Jesus nasceu...
- A senhora confirma, dona Maria?
- Confirmá, moço, o quê?
- Eu vou fazer uma pergunta. Se a senhora responder o mesmo que o senhor Jacinto, ele ganha a viagem!...
- Então tá. Pode falá!
- Dona Maria, com quem, quando e onde a senhora fez sexo pela última vez?
No ar, os ouvintes perceberam a barulheira do telefone caindo no chão. Maria, pega de surpresa, arrumou uma tremedeira que a platéia de uns quinze pares de olhos da cadeia municipal pensou que ela ia ter um troço.
- Pega o telefone, dona Maria!
Era o locutor. Mas a ordem ela ouviu pelo rádio do cabo Assunção, ligado no último volume. Maria queria sumir do mundo. Entrara numa enrascada... Três soldados olhando para ela, dois presos, três bêbados, a namorada de um soldado, a amante do outro, a mulher do delegado e uns sapos... Maria arrumou gagueira para acompanhar a tremedeira. Suadeira também.
- Virge Maria, moço! Que pergunta mais boba!...
- Olha, dona Maria, a senhora pode viajar para qualquer lugar do Brasil!... Pense bem!
- Moço, isso não é pergunta fazê pruma muié direita! Cruizincredo! Cadê o Jacinto? Chama esse safado aí!
- Senhor Jacinto, fala pra ela que é coisa simples! É só ela responder o que perguntei!...
- Muié!... Maria! Tão bão, bem?... Fala pra ele! Pofalá!... Já contei prele memo! É só ocê confirmá, sá!
- Então, dona Maria! Quando foi, com quem foi e onde foi que a senhora fez sexo pela última vez?
- Jacinto disgraçado!... Quando foi? Seja o que Deus quisé! Tem mais de um mês, moço! Foi com o Jacinto, uai! Eu, heim? Parece que bebe!?
O locutor soltou uma gargalhada. Ouvintes atentos, ouvidos colados no rádio. Povo da cadeia municipal, privilegiado, aumentando a platéia. Cutucando um no outro. Risinho no canto da boca. Piscadelas sutis. Maria suando por tudo quanto é poro. Aliviada com a resposta que deu.
- Dona Maria, faltou uma coisinha para vocês ganharem o prêmio! Onde foi?
- Não, moço, isso num falo não!...
- Fala, dona Maria! Só falta isso! Pense na viagem que a senhora, decerto, nunca fez!...
- Falo não! Hum, hum!...
- Maria! É ieu, o Jacinto! Fala, muié! Dexa de sê boba! Pocontá! Tem nada dimais não!
- É isso mesmo, dona Maria! Todo mundo faz isso! A senhora não vai contar nenhuma novidade!
- Hum, hum!... Falo não!
Em todo o país os ouvintes podiam ouvir um coro, captado pelo telefone: "fala! Fala! Fala!". Era a galera da cadeia municipal torcendo pela Maria com o Jacinto e querendo saber mais da intimidade dos dois. A mulher do delegado até já pensava em pedir à Câmara Municipal diploma de honra ao mérito para o casal que tava levando o nome de Tabuí para o mundo.
- Dona Maria, a senhora só vai confirmar o que o senhor Jacinto já falou para todo o país! Não será nenhuma novidade para o Brasil! Fala, dona Maria!
- Jacinto, sô fiedaputa! Cê foi contá aquilo?
- Muié, é só dizê ondé que foi, sá!
- Dona Maria, a senhora gostaria de ir para qual cidade do Brasil se ganhasse o prêmio?
- Pra Belém, uai!
- Por que Belém, dona Maria?
- Queria conhecê o lugá ondé que Jesuis, nosso Sinhô, nasceu, uai!
- Muito bem, dona Maria! Motivo muito justo e santo! Sonhe com a senhora fazendo a viagem, dona Maria e diga: em que lugar foi que a senhora fez sexo a última vez?
- Digo não! Cê besta, sô!
- Muié, diz aí, sá! E, óia, tô me arrumano pra ir pra casa! Morreno de sodade, sá!
- Onde foi, dona Maria?
Momentos de silêncio. Maria pensando. Jacinto tremendo de emoção. O locutor, também reprovado em geografia, na terceira série, esperando. Povinho da cadeia municipal torcendo: "fala! Fala! Fala!".
Aí o locutor, doido para entregar o prêmio pros dois, resolve dar mais uma força.
- Dona Maria! É só a senhora completar o que vou falar. Se completar, ganha o prêmio! A senhora já disse que foi com o senhor Jacinto e em Tabuí... Falta dizer onde. Todo mundo já sabe. Só falta a senhora confirmar...
- Silêncio geral. Suspense. Maria era tremedeira e sonhos...
- Completa aí, dona Maria! Foi na cu-----
- Ondé? Ô doido, sô! Num falo isso nem vê!... E num é na, é no!... ai, meu Deus do céu!... tá bão! Seja o que Deus quisé!
E Maria resolveu desembuchar. Vontade de ganhar aquela viagem era grande demais da conta. Encheu os peitos de certa coragem, empapou mais a roupa de suor, tremeu igual vara verde e, gaguejando feito gago legítimo, falou bem baixinho para todo o país ouvir:
- Fo-foi no-no tra-tra-zeiro, no trazeiro! No fiofó!... Jacinto disgraçado!
Locutor chama os comerciais rapidinho.
Ganharam o prêmio. Feita a vontade de Maria que conheceu Belém errada. Mas Jacinto ganhou seu terno e gravata.

14/04/2008

Só um lembrete


Há muita gente boa por aí que escreve “há muito tempo atrás”, “há cinco dias atrás”, “haviam muitas pessoas”, “haverão vários acidentes”. Tá errado. O certo é “há muito tempo”, “tempos atrás”, “há cinco dias”, “haverá vários acidentes” e por aí vai. O verbo haver é impessoal e só se conjuga na terceira pessoa do singular no sentido de existir, ocorrer ou acontecer ("havia muitas pessoas na sala") e quando se refere ao tempo, no passado ("há cinco dias estou doente").

Plano de saúde do Zeredão

Zeredão tava casado já uns par de anos e começou a notar que a mulher andava com uns “pobrema”. Resolveu procurar uma cidade maior que Tabuí, onde ninguém os conhecia para um ginecologista dar uma examinada na Gerusa. Foram a Bambuí.
O médico dá aquela examinada geral enquanto o Zeredão fica do lado de fora, preocupado, querendo entrar de qualquer jeito para saber o que acontecia lá dentro.
- Dona Gerusa, vocês têm orgasmo?
- Ãhn? Orgasmo? Peraí, dotô!...
Gerusa abre a porta do consultório e inocentemente grita pro marido:
- Ô Zeredo! A gente temos orgasmo?
- ÊÊ, Gerusa! Tem não, sá! Esse daí não, causdiquê a gente só temos Amil.

06/04/2008

Mais logo numa moita...


Lá no Abacaxi, currutela de uma rua só, a muitas léguas de Tabuí, era noite de lua cheia. Tempo fresco e época de colheita. Todo mundo gente muito simples. Divertimento com aquela lua toda era uma baita festa ao som duma viola doída, uma boa sanfoninha reco-reco, um cavaquinho e um pandeiro. Cada um arranhando mais que o outro. Imitando caipiras de fama. Aqueles do rádio. Cantadores cantavam cantigas apaixonadas, com olhinhos até fechados, sonhando com sucesso fácil da cidade grande. Bem diferente de ter que enfrentar cabo de guatambu dia-a-dia.
Festa cada vez mais animada. Tanto dentro quanto fora do rancho. De terra batida. Forquilha no meio para segurar a cobertura de sapê. Lá fora só movimento. Homens e mulheres, cansados de tanto arrastar o pé e balançar o esqueleto, tomavam uma branquinha pra esquentar o peito, proseando enquanto queimavam um pitinho. Lua cheia, misturada com noite fresquinha e pinguinha, clareava e contribuíam para o bom desenrolar dos proseamentos.
Enquanto isso, no salão, lotado, dança corria solta. Rela-rela pra tudo quanto é canto. Lá no Abacaxi ninguém cuida da vida do outro. Sem futricas. Cada um faz o que acha certo, é respeitado pelo que é e pelo que faz. Mas num cantinho mais escuro, embora ninguém nem olhasse, tinha um casalzinho que garrou a dançar no comecinho da festa, assim que o sol se pôs, e não parou mais. Não parou é maneira de dizer. Porque parados, no meio do rancho, ficavam tempão danado. Agarradinhos. Coisa com coisa encostadinha e latejando.
Lá pelas tantas da madrugada, rancho abarrotado de gente, contrário do clima lá fora, calor derretia neguinho. Até tocadores deixaram de sonhar e já reclamavam. Sanfoninha espumando melecada de suor. Pandeirinho nem mais respondia à pandeiração. Só casalzinho tava nem aí. Dançava e dançava cada vez mais agarradinho, esfregando as coisas, no bem-bom, olhinhos até fechados. Queriam que o mundo acabasse em moita. Com aquela quentura toda não teve outro jeito. Rapaz garrou numa suadeira danada. Molhado dos cabelos da cabeça até a ponta do dedão do pé grande. Mocinha também. Ruge escorria naquele rostinho aveludado. Vestidinho de chita todo molhado, grudado no corpo, mostrando formas apetitosas. Músculos fortes de uma cabrocha do sertão. Assim meio tonta, resolve falar alguma coisa para o desejo contido arder menos. Abre um olhinho... O outro olhinho... Desgruda a cabecinha do peito do mancebo e diz pra ele, caprichando e dobrando a língua nos pronomes:
- Mas você sua, heim?
E o rapaz, sonhando com o mais logo numa moita, candidamente, sem nem pensar, responde rapidinho:
- E ieu tamém vô sê seu!!!...

04/04/2008

Onofre foi embora

Minervina olhava pro céu, como que procurando urubu, distraída da vida, vagando pelo quintal. Vez por outra dava um fungado e limpava o nariz com uma levantada de ombro. Aí chegou o vendedor de bugigangas, doido pra ganhar uns trocados naquele cantinho de mundo.
- Tarde, dona Minervina! Cadê o sô Onofre?
- Tarde, sô! Ta bão, fio? Onofe taí não!... Saiu!...
- Onde ele foi, dona Minervina?
- Uai, sô!... Foi cointerro!
- E a senhora sabe se ele vai demorar?
- Ahhh, sô! Acho que vai. Apois quele foi dendo caixão, uai! Ô dó dele, sô! Ô sodade!...

03/04/2008

Causo e conto




Muitos leitores me perguntam pela diferença entre causo e conto. No meu entender, todo causo é um conto. Só que mais limitado, onde se procura dar um fecho geralmente surpreendente e quase sempre cômico. Portanto, no causo, o escritor evita viajar muito. Já no conto, não há limites e nem regras fixas. O escritor tem a liberdade de escrever à vontade, apenas evitando, é claro, cair na chatice pela prolixidade.

Briga de galo

Vitinho não perdia uma aposta de briga de galo em Tabuí. Era batata. Aí apareceu alguém da cidade, depois de ter perdido todas, para pedir conselho ao Vitinho.
- O senhor entende mesmo de briga de galo, num é moço?
- Marromeno!
- Então me diga aí, na próxima luta, qual é o galo bom?
- Óia, o bão memo é o carijó! – Respondeu o Vitinho.
O moço da cidade apostou o resto dos trocados que tinha no galo carijó. Mas só que o carijó não deu no couro. Apanhou até perder o rumo de casa. O da cidade ficou brabo.
- Você não disse, seu caipira, que o galo carijó é que era o bom?
- Dizê eu disse e repito, é ele é que é o bão. Agora o marvado, que bate em todo mundo mesmo, é o vermeio.

02/04/2008

A n g ú s t i a




Me dá uma raiva danada de todo dia ter de ser eu quem aparto essas vacas. Quero só ver quando eu não estiver mais aqui. Meu Deus do céu, me ajude para que as vacas não entrem no mato hoje. Eu morro de medo de entrar atrás delas. Lá é assombrado. E se eu não for atrás para tocá-las elas não saem. Ficam lá encafuadas. Minha Nossa Senhora Aparecida, ontem eu lhe prometi cinqüenta cruzeiros a seus pés lá na igrejinha pra senhora ter dó de mim e não deixar as vacas entrarem no mato. Me ajude, pelo amor de Deus! Eu não posso pagar agora porque não tenho dinheiro, a senhora bem sabe. Mas no final do ano o pai vai plantar arroz e na safra me dá um saco mode eu vender.
Aí eu pago a senhora. Me ajude, tenha dó! Eu morro de medo!
Ai, desgraça! Esses espinhos só servem para machucar a gente. Hum!
Santo Antonio, ajunte os outros santos pra me ajudarem. São José, que era tão bom para o menino Jesus, vai ser bom pra mim também.
Menino Jesus, me ajude também. Lembre-se de como o senhor sofria quando era pequeno e não me deixe sofrer agora. Não deixe que as vacas entrem no mato. Borro de medo. Lá, além de ter assombração, tem cobra e outros bichos que podem matar. E eu não quero morrer...
Guie-as para mim e assim basta eu tocar... São Jerônimo, me ajude também. São Sebastião, lhe prometo uma dúzia de ovos quando a minha galinha botar... Eu vendo os ovos e ponho o dinheiro a seus pés lá na igrejinha. Eu tenho medo! São Paulo, vou pegar um pedaço de bambu aqui.
Não é para bater nas vacas não, porque sei que é pecado. É para matar alguma cobra que atravessar no meu caminho. Sei que bicho ruim não é pecado matar. Me ajude também, São Paulo!
Chame o São Pedro pra lhe ajudar a ficar pondo sentido nessas meninas chifrudas!
Prometo rezar um terço hoje à noite na sua intenção...
Santa Maria, as vacas estão ali! Me ajude para que elas não se enfiem pelo mato a fora, senão eu vou ficar com muita raiva e sei que isso é pecado e eu não quero pecar. Me ajude então que assim eu não peco!
Vamos Mimosinha! Tá na hora! Roseira, deixe de senvergonhice! Larga de cheirar a outra! Laranja, pegue o seu bezerrinho e ache o seu caminho! Mas pelo amor de Deus, não se enfiem no mato! O menino Jesus vai guiando. Ele tá lá na frente. É só seguí-lo que ele sabe o caminho. Vamos Cerveja! Estrela! Barroso, vai na frente! Não deixe que suas mulheres entrem no mato! Não seja ruim pessoa comigo não, tá?! Vamos bezerrinho, vai junto com sua mamãe vaca!
Ai, minha Nossa Senhora Aparecida, nã deixe que elas entrem no mato!
Lá tem espinhos... Tem atoleiros... Tem cobras... E, o pior, tem assombração...
Senhora Aparecida! As desgraçadas estão entrando no mato! Acuda logo antes que eu comece a chorar!...
!!!...
Mimosinha, volte, pelo amor de Deus!... Sai daí! Siga o merda do menino Jesus que devia tá lá na frente! Desgraçadas! Ô vacaiada capeta! Voltem, cambada de fedaputa! Suas desgramadas lambisgóias, não vêem que eu tenho medo! Barroso, moleque dos quintos, hoje foi você quem puxou suas mulheres pro mato! Foi má pessoa comigo! Também essa merdaiada desses santos não ajudam a gente!
Ai, meu Deus do céu, agora tenho que entrar no mato! Me vigie, tenha dó! Nunca vi santos tão atoas assim!... Nem ligam de ajudar um menino como eu!... Vou parar de rezar um mês inteirinho agora. Quero ver se eles não vão me ajudar de outra vez. Que santaiada bosta esses que Deus arrumou!
Mimosa desgraçada! Ande, saia do mato pras outras irem atrás! Ai, meu Deus! Vou dar uma paulada nesse bezerro da diaba da Estrela para ele nunca mais querer entrar aqui! Vamos, magrelada, vocês entraram no atoleiro do meio do mato, agora têm que sair! Cambada de tentação! Nossa Senhora, meu Deus, me dê assunto para eu não parar de falar! Se eu ficar calado, nem sei o que vai acontecer! Qualquer barulho me assusta... O escuro do mato me lembra noite... A noite me lembra medo...
Ai, minha cabeça! Pra que tanto pau torto neste meu caminho cheio de atoleiro, meu Deus!
Nossa Senhora, que inferno este em que vivo! Ninguém do meu tamanho sofre como eu! Meu pai é um sem consciência... Botar um menino do meu tamanho para fazer uma droga de serviço desses, onde já se viu? E depois ainda fala que sou preguiçoso!...
Vamos, sua dentuda! Não precisa ficar olhando para mim que o pau vai comer! Já quebrei o bambu, mas arrumei um cacete mais forte! Vocês que não andem e vão ver! Olhe São Sebastião, ainda lhe dou o dinheirinho dos ovos se o senhor me ajudar!... Até o capeta serviria pra me dar um adjutório... Era só ele não aparecer pra mim! Eu não quero é ficar aqui no meio do mato, feito bocó, chorando sozinho e gritando com estas miseráveis sem juízo e sem coração...
O pior é que já está escurecendo... O coisa ruim bem que podia tocar estas vacas para mim! Mas não quero que o chifrudo me apareça...
Cruz credo! Eu seria capaz de xingar todos os santos que não me ajudaram se ele me desse uma forcinha... Vamos, suas vacas desgraçadas!...
Já estão se mexendo!... Vão sair, graças a Deus, meu Deus! Ah cambada! Deixem eu crescer e vocês vão ver se fazem mais isto comigo! Serei capaz até de matar uma pras outras aprenderem a lição... Graças a Deus que estão saindo!... Cambada de vagabundas fiadazunhas! Deviam ir todas pro meio dos quintos! Não vou cumprir nenhuma das promessas que fiz! Nenhum santo me ajudou, por isso não pago a ninguém. E Nossa Senhora Aparecida, a chefa da santaiada, a quem eu já devia cinqüenta cruzeiros não vai receber mais nem esses cinqüenta. Só por desaforo! Ela tem precisão de aprender mais a ajudar os outros. Quero ver se assim esse povo do céu não me ajuda da próxima vez!
O meu Deus, não tenho nada com o coisa ruim, heim?! O que eu disse dele era só brincadeira! Era porque eu estava meio enjerizado. Eu gosto mesmo é do Senhor, e para mostrar que gosto, vou rezar três Pai Nossos e três Ave Marias, com um Glória ao Pai, esta noite... E não vou mais esconder as bonecas da minha irmãzinha, tadinha! Nem colocar caldo de pimenta na mamadeira dela... Não deixa então o coisa ruim vir me amolar, senão eu borro de medo!...
Vamos, bezerrada sem vergonha! Agora vocês vão ficar separados e não precisam berrar agoniados que eu não tenho um pingo de dó de quem não teve compaixão de mim! Bem feito ficarem sozinhos sem as suas mães! Quem mandou vocês aprenderem a judiarem de mim também!
Graças a Deus estou livre! Cumpri mais uma obrigação, a pior de todas. Posso ficar alegre e ir brincar de caminhãozinho antes de acabar de escurecer...
Mas que tristeza, meu Deus! Não adianta eu ficar alegre! Amanhã tenho que apartar as vacas de novo! Que merda!..

Futebol no Interior



No interior futebol desperta grande paixão. Cada timinho, com camisa bonita ou feia, vistosa ou descorada, ou sem camisa mesmo, luta bravamente, até no tapa, se preciso for, para defender seu torrão.
Assim é que, no sábado de tarde, começaram a chegar a Tabuí os representantes do Lusitano Futebol Clube, um timinho danado de valente, lá do bairro do Cerrado, ali mesmo do Bambuí. Chamava-se Lusitano porque o Zezim Mecânico, o dono da bola e, conseqüentemente, do time, achava esse nome muito chique e bonito, mas nem sabia o significado da palavra. A turma foi chegando e se ajeitando como podia para tomar banho ou botar perfume por cima da suvaqueira, já que Tabuí preparara festa com baile para receber os atletas da cidade vizinha. A marmanjada caiu na dança, aproveitando os escurinhos do Ranchão do Bia e, atrás dos esteios e das samambaias choronas, só queria saber de música lenta, assim pra juntar a parceira nos panos, bem agarradinho, fungando no cangote e deixando mão-boba passear. Meninas de Tabuí mais assanhadinhas, principalmente em presença de forasteiros - que, em tese, poderiam, um dia, levá-las a correr mundo - não deixavam por menos, com os devidos cuidados, já que precisavam conservar-se incólumes para arranjar marido. Sem deixar de aproveitar o bem-bom, seguiam os conselhos das mais experientes que ensinavam ó mão-na-mão pode, mão-naquilo também pode, mas, aquilo-naquilo, nunca, jamé. Só casando.
Ao fim do baile, com todo mundo de ressaca e cuspindo azedo por causa da qualidade da pinga adocicada vendida pelo Bia, conservada em barril que um dia guardara soda, - é pincumel, gente! Da boa! - houve atletas que conseguiram dormir um pouquinho, ali mesmo no Ranchão, alguns até grudunhados no cangote dalguma mocinha. Mas nem deu oito horas, tava a marmanjada de pé, com o Zé Tramela, o ponta direita, nervoso demais da conta com o gosto de cabo de guarda-chuva na boca e xingando todo mundo: iscondero minha iscodidente, cambada de fedaputa!
Os visitantes andavam pra cá e pra lá, pelas quatro ou cinco ruas da cidade, sondando o ambiente, reconhecendo terreno e jogando piscadelas, ainda remelentas, pras meninas. Um frejo quisó.
Mas, vamos ao que interessa. Houve o jogo. Com muita canelada e muita insubordinação. Terminou tudo num pífio empate de um a um, com um frango homérico do goleiro visitante, embora o seu time, o Lusitano Futebol Clube já estivesse com a partida ganha. Foi uma glória para o sofrido povo de Tabuí o gol marcado pelo intrépido beque Zizifrido que lavou a honra do time, prestes a ser ultrajada. Zi, como era conhecido, virou herói. Quando perguntado pelo locutor da Rádio Tocatudo qual o milagre de um chutinho daqueles virar gol, não teve dúvida em responder:
- E eu sei? Só sei que chutei a bola e ela foi fono, foi fono, foi fono... e, niquieuvi, ela tava lá, dendo gol, sô!...
O goleiro Zafarel, meio zarolho depois do gol, foi de uma sinceridade piedosa:
- Ó, sô! Vi quais nada. Só sei que a bola veio vino, veio vino, veio vino e cresceno... assim que mirei ela, quesse meu oio bão, já bem grandona, pulei nela mas a merda já tinha passado...
Depois do jogo, outra festança oferecida pelo povo bão da cidade, com churrasco de vaca magrela e cerveja quente. Que fez efeito a ponto do Zezim Mecânico chutar discurso doidimais da conta.
- Gente! Cheguemo, joguemo, num perdemo e nem ganhemo... só impatemo!... Gostô Nicodemo?
Os visitantes, que gostaram foi nada do empate, começaram a se mandar, lá pelas tantas da noite, em caminhão, feito pau-de-arara, na rural do Tancredo Chuvas e, pro fusquinha do Zezim Mecânico, o chefão, só sobraram o próprio e o infeliz frangueiro Zafarel que ninguém, de pirraça, quis levar. Zezim, bêbado e puto da vida com seu arqueiro, resolve, também ele, negar carona:
- Ó, sô! Prestenção! Cê num é dêis? Num jogô prêis? Num frangô prêis, trem? Agora fica cuêis!...
E o goleiro Zafarel teve que curtir uma noite solitária e sem glória – e agora, concovô, meu Deus? Poncovô? - num banco da praça de Tabuí. Convicto do seu erro, lamentava-se, enquanto buscava sono, esse povo é ingrato mesmo, pensano que sou um compreto inúti. Sou é não. Sirvi omeno de mau exempro pros mais novo, uai!... Bispando o dia, teve que arrancar, no dedão do pé grande, as três léguas até o Cemitério Municipal de Bambuí, onde era o coveiro e dava expediente dia-sim, dia-não, havendo ou não defunto, num revertério com o Nicolino, o colega sepultador. Houve luto de uma semana, no Cerrado, pelo jogo perdido. Faltou pouco pro Zafarel perder o emprego naquela quadra, mas goleiro do Lusitano Futebol Clube ele nunca mais foi.