26/09/2008

O fantasma da sogra Mariana


Caiu lá na cozinha a sogra da Amélia. A velha se estrebucha toda, geme e se mija. Só as duas em casa. Amélia parte para o desespero, sem prática para a desagradável situação.
- Meudeusdocéu! Oquecofaço?
Mexe daqui, vira dali, Amélia desconfia que a velha morreu. Medo provoca tremeliques naquele corpo acostumado à brabeza da vida. Resolve chamar alguém naquilo que é arremedo de hospital em Tabuí. Meia hora depois, chega a enfermeira, quase alfabetizada. Olha, apalpa, escuta, desaperta botões e laços e nenhum diagnóstico. Agoniada por ver aquela pouca prática vestida de branco, Amélia pergunta, com receio de ofender:
- Cadê o médico, fia?
- Ãhn? Médico?... O dotô só mais tarde... Foi socorrê arguém lá pras banda da Perdição...
- Dona enfermeira, então vamos tirá ela do chão e levá lá pra cama?
- Não! Ninguém mexe nela enquanto o dotô não chegá!... É de lei!
Como orde é orde, Amélia, contrariada, engole em seco a petulância da moça e foi cuidar de mandar recado pra cunhadagem. De vez em quando dá uma olhada na sogra, esparramada no chão, quieta, como defunto. Agonia e tensão aumentando. Aí, de tanto confabular com seus botões e doida para baixar o facho da enfermeira, tomou decisão e chamou a moça, que cochilava num canto do sofá.
- Vamo botá ela na cama!
- Não! Ninguém mexe nela! É orde!...
- Que orde que nada, ô coisa! Iscuta aqui, ô menina, a difunta é minha ou é sua?
A enfermeira abriu a boca, sem ter o que responder e surpresa porque a Amélia já decretara a defuntice da sogra. Foram a duas e, junta daqui, junta dali, conseguiram colocar a velha na cama. Virara defunta mesmo, já endurecendo as carnes e fria como gelo.
Notícia correu Tabuí. Povo vem feito mosca varejeira. Boquinha da noite. Vêm também, de vários cantos da roça, o monte de uma dúzia de cunhados e cunhadas e noras e noros e, também, os cento e tantos sobrinhos da Amélia, menos o seu marido, o Lazim, que tinha começado viagem com boiada pras bandas do Goiás. Choro pra cá, choro pra lá. Lamúrias. Arrependimentos.
Bem antes da meia noite, o povo curioso e esfomeado foi raleando, depois que acabaram os quitutes, frango frito com farofa, brevidade e a pinga. Ficaram os parentes, a maioria dormindo amontoada aqui e ali e uns dois ou três fumando um cigarrinho lá fora enquanto jogavam conversa fora. Lá pelas três, Amélia não aguentava mais. Tensão, cansaço, tristeza, sono, medo... Foi desculpar-se com a velha defunta. Só as duas no quarto.
- Olha, dona Mariana, não fica chateada não, viu? Vou dar uma cochilada. A senhora sabe que sempre fui atenciosa, só faltando adivinhar seu pensamento... A senhora...
Amélia tava tão absorta no monólogo, com a mão na testa da sogra, que não notou o Lazim, chegando da viagem mal começada, por saber da morte da mãe. Ao ver a esposa com os olhos fechados, falando com a morta, ficou ressabiado, pensando que a mulher tava lelé, e colocou suavemente a mão no seu ombro, fria pela emoção de ver a mãe morta. O susto foi tamanho e o grito maior ainda. Sem entender o que acontecia, pensando em alma do outro mundo, Amélia cascou fora. Saiu em correria desabalada e só conseguiu chegar até o sofá da sala, onde desmontou, virando os zoinhos. Só acordou quando lhe deram álcool para cheirar, abrindo ora um, ora outro olho, desconfiada de que aquela mão fria que tocara em seu ombro era mesmo do fantasma da sogra Mariana.

19/09/2008

Bembem padece de amor


O Raimundo barbeiro estava quase indo à falência. A machaiada de Tabuí fizera da sua barbearia ponto de encontro predileto, onde se ficava sabendo de tudo. Quem tava ficando rico ou pobre, quem gostava de quem, quem apanhou de quem, quem tava saindo com quem... e o Raimundo brabo com a falta da freguesia que refugava de tanto falatório. Freguês que se aventurasse ali, mal saia, a ficha tava completa e era assunto por uma semana. Até que um dia o barbeiro resolve espantar o azar. Zequinha Bembem, o açougueiro simplório, o mais conversador de todos, contador de papo, inventor de histórias, metido a brabo e a paquerador, era quem mais divertia a turma da barbearia. Raimundo acha de aprontar com o Bembem para ver se espalhava aquela homaiada da sua barbearia e a freguesia voltava. Escreveu bilhete com letrinha delicada, caprichando na língua pátria. "Zequinha, tô pachonada por ocê. Sou sua fãn ocurta. Quero marcá incontro. Guarda segredo." E colocou o bilhete debaixo da porta do açougue, já tarde da noite, para não correr o risco de ser visto.
No dia seguinte, mal o Raimundo abre a barbearia, lá vem o Zequinha Bembem correndo, eufórico.
- Remundo, óia só! Ela tá paixonada por mim, sô!
E Raimundo leu o bilhete que ele mesmo escrevera, mostrando espanto.
- Mas ocê não tá guardano o segredo que ela pediu, ô Bembem!
- Só tô contano procê, Remundo!
- Óia, é bom ocê não contá para mais ninguém não, sô! Cê num conhece aquele ditado que diz que quem tiver segredo, não conte pra mulher casada, pois ela conta pro marido e ele pro seu camarada? Segredo tem perna curta, home! Ainda bem, Bembem, que sou homem de pouca fala! E quem será ela?
- Sei não... pode sê a...
E Bembem teceu uma longa lista das possíveis pretendentes. De solteiras donzelas a casadas que jogavam água fora da bacia, até a beatas convictas e juramentadas.
- Ah, Remundo! É dessa vez que eu disincravo, sô! Vai s'imbora, solidão!...
Bembem passou o dia inquieto, rindo a toa, doido para enfronhar conversa de amor. Como ninguém deu trela, ele se calou. E Raimundo, só de butuca, querendo ver até quando o homem guardava segredo. Antes de ir para casa, comecinho da noite, escreve outro bilhete, novamente com letrinha delicada "Beimbeim, meu amor. Quero mim revelá procê amanhã de noite ao beco do Mijo 9 in ponto. Se eu demorá um poco, mim espera. Vái sozinho. De camisa branca pra mode eu vê ocê no iscuro. Nem paletó, nem blusa e nem xapéu. Oia o segredo viu? Sua amada". Deixa-o debaixo da porta do açougue e vai pra casa esconder-se do frio entre as colchas e coxas da patroa.
De manhãzinha, lá vem o Bembem correndo de novo, emocionado e sem fala, escondendo papelzinho rosa no bolso.
- Remundo, ela me escreveu de novo, sô!
- Ih, é? Dexovê!
- Na-na-ni-na-não! Desta veiz não! Vô guardá segredo. É pedido dela.
- Deixa de sê bobo, sô! Cumpoco cê tá pensando que eu quero passá ocê pra trás?
- Né isso não, Remundo! Amanhã eu conto procê, tudo, no seu tintim, viu? Ah!... Esta noite vai acontecê coisas!... - suspirou ele, revirando o zoinho.
Raimundo viu o amigo pra lá de emocionado. Os olhos brilhando, a respiração ofegante e ele não parava um instante sequer, saltitante feito tiziu.
Bembem, naquele dia, não abriu o açougue e nem matou vaca. Ficou zanzando pela rua, ruminando seu segredo, vendo passarinho verde, doido pra contar para alguém mas se segurando, em respeito ao pedido da amada desconhecida.
À noite, a barbearia funcionou até bem mais tarde. O Raimundo, pedindo boca de siri, contou pra mais de uns quinze a história do Bembem. E todo mundo ficou sabendo o que iria acontecer.
Um pouquinho antes das nove, tá a turma toda abafada, dentro da barbearia, tiritando de frio, cada um mais encapotado que o outro, esperando Bembem passar. Para chegar ao beco do Mijo, aquele era o único caminho. Cinco pras nove, um avisa lá vem o home! Bembem vem, em manga de camisa branca, banho tomado, perfumado e barba feita, olhando desconfiado para a porta da barbearia, de onde saia luz e bafo de macho. Assim que vai passando, encolhido pelo frio e para não ser visto, alguém grita lá de dentro ô Bembem, ondé cocê vai, sô? Vamo chegá, home! O açougueiro, pego de surpresa, treme nas bases, sente batedeira, perde o tesão incontido e começa a suar frio.
- Tá com frio não, Bembem?
- Vô ali! Tô não! - responde o moço às duas perguntas de uma vez.
- Vem cá, Bembem! Vamo tomá uma pra esquentar o peito, home! - insiste o outro.
- Depois em venho, tá? Larga deu! Dexeu em paz!
E isala no mundo, ganhando a escuridão do beco do Mijo. Nessa hora, o Raimundo barbeiro entra em ação. Pega sua bicicleta velha, de nome magricela, bastante escangalhada, e sai também em direção ao beco do Mijo. Passa pelo Bembem e finge não conhecê-lo. Dá uns cinco minutos de prazo e volta. Repete a ida e a vinda mais umas duas vezes, enquanto o Bembem se espreme entre um muro e um poste de luz sem luz, imaginando que não seria visto e nem reconhecido pelo barbeiro. Praguejava pros seus botões, querendo saber o que o Raimundo fazia por ali, àquela hora da noite. E, emocionado, espera, espera, espera... tremendo de frio. Até que, da emoção, após mais de uma hora, passa à raiva e resolve ir embora. O povo, estranhamente, - Bembem achou -, naquele frio, continuava na barbearia. Puto da vida, resolve pular dois muros do quintal do Alfredão, correndo risco de mordida de cachorro, para não ser mais visto por aquele bando de vagabundos. Passa no seu açougue, já quase 11 da noite para procurar sinal da amada. E acha. Papelzinho cheiroso, cor de rosa, com letrinha delicada, dizia:
"Meu bem. Me perdoa gostozão. Num deu pra mim falá cocê. Si ocê num sabe, sou muié casada e o tarado do Remundo barbero tá disconfiado e aresorveu dá em riba deu e a siguieu fazeno preposta obissena de sequisso. Como num quero ficá malafamada, adeus".
Bembem não esperou pelo dia seguinte. Saiu de si e deixou, no coração, lugar para homem brabo. Pegou faca de sangrar vaca e foi pra barbearia. A turma, incentivada pelo Raimundo, esperava.
- Cadê aquele disgraçado do Remundo? Remundo!... Traidô! Vem cá fora procê vê o quequié bão pa tosse! Cê tá dano inriba dela, né, fedaputa?!...
Entrou em campo a turma do deixa disso e foram segurar o Zequinha Bembem. Começaram os empurra-empurras e os sopapos. E uns passaram a descontar nos outros as mágoas de antigamente, as fofocas mal ditas e as falas bem ditas, dando e levando bordoada. Cada um por si e Deus por todos. O fuzuê foi feio, em plena rua, beirando a meia-noite. Na refrega, alguém sumiu com a faca do açougueiro, desapareceram a peruca do alfaiate Cirilo e a dentadura do Laerte. Quando chegou o Divino soldado, o Toim Zaroio procurava, tateando o chão, os seus óculos fundo de garrafa e ninguém entendeu porque o Mané Falafina, o qualira da cidade, mais conhecido como arame liso, perdeu a calça e tava sentado no colo do Xinco Mangüara num cantinho mais escuro. Com o Divino, tudo acalmou quando, franzino e baixinho, ele teve que gritar, dando pulinhos e tiros pro alto para impor sua vontade.
- Cês num tão veno a otoridade aqui não, ô? Pára cuisso, cambada de fedaputa!
Ao ouvir os tiros e sentir cheiro de autoridade, cada um foi saindo de fininho pra caçar seu canto, fugindo de ver o sol nascer quadrado. E Raimundo, o único que não tomou parte da confusão no meio da rua, fechou sua barbearia em paz, enquanto os da turma, alguns de olho inchado, boca sangrando e cuspindo dente, ficaram de nariz torcido e de mal uns com os outros. Era o que Raimundo queria para atrair de novo a freguesia.

14/09/2008

A Sogra do Zé do Zóio


Vida mansa. Um dia comia bem, outro mal, mas não reclamava. Tintiando sempre. Maior trabalho era buscar lenha, ali mesmo no mato do corgo, pra fazer o de comer. No pensamento, homem conformado.
- Levo vidinha simprória quisoveno, cuessa muiezinha feia quinté dói, mas que foi meu Deus quem me deu, uai!...
Mulher também não reclamava da vida não. É baxo! Feia de cara, mas muito boa pessoa. Tinha dias que Zé do Zóio tirava para dormir. Noutros, para contar as moscas varejeiras que chegavam no seu terreiro, atrás do mau cheiro deixado pelos restos de peixe que a mulher jogava em qualquer canto. Era o que naquela casa mais se comia. Dava pouco trabalho pescar. Foi de tanto contar moscas e segui-las no seu vôo pra lá e pra cá, - dizia o povo -, que ele ficou com o olho torto e ganhou o apelido. Em resumo, a gente pode dizer que Zé do Zóio vivia quase tranqüilo na sua casinha, de pau-a-pique e chão batido, na beira do corgo, ao lado da estrada.
Vivia. Porque, depois que ganhou na loteria, com aquela tantada de dinheiro, vida só mudou. O terreninho em volta da casa virou fazenda da melhor qualidade. A casa continuou no mesmo lugar, só que toda incrementada, grandona, de tijolo e telha e muito colorida. Encheu a fazenda de boi, porque não queria nem pensar em puxar enxada mais não, comprou jipe e carro fechado, último tipo, pros passeios com a patroa. Mandou até buscar a sogra pra participar da fartança.
Foi nessa quadra que apareceu o Godofredo, o amigo da onça lá da cidade, com a pergunta mais esquisita prum cristão não muito convicto.
- Izé, cê já tem uma amante?
- Ãhn?... Ieu? Quequéisso?... Tenho não, sô! Tenho vergonha dimai da conta!...
- Ó, Izé... cê é um home rico e todo home rico tem uma amante, asveis até mais de uma, sô! Cê já pensou ter uma menina nova só para fazer as suas vontade, tudo no escondidinho?!....
O Zé do Zóio ficou parafusando, pensando naquilo, como havera de ser. Teve até dor de cabeça. Durou tantico de nada, deu jeito de voltar à cidade e foi atrás do Godofredo para assuntar mais daquele trem. Foi batata.
- E aí, Izé? E a amante?
- Amante? Tem quem mi qué não, sô!
- Tem sim, rapaiz! Cê quessa grana toda, basta querê... já pensou uma menina nova esperano ocê de braços e pernas abertas e aquela quentura quisó?...
A semente, pelo Godofredo, fora relançada. Zé do Zóio ficou mais vesgo, engoliu em seco, quase teve engasgo e suava frio enquanto enfiava as mãos nos bolsos para esconder protuberânciazinha que, decadente, ressuscitava. Passou semana sem dormir direito até que, na tarde do sábado, arranjou desculpa para ir sozinho à cidade. No carrão. Lá num boteco do canto suspeito de uma rua suspeita, mira nos olhos da primeira sirigaita que lhe pareceu ajeitada.
- Cê me dá uma arruela de proseio, moça?
E ajeitou namoro escondido, com promessa de montar casa. Naquela noite a mocinha, agradecida, fez Zé do Zóio, dentro mesmo do possante, ver estrelas, sair do atraso e ficar de quatro, apaixonado.
- Ai, meu Deus, ela é cherosa cumas frô da noite!... Mai qui belêzz!...
Voltou tarde da noite para casa e fez como no filme da televisão. Tirou botinas para entrar no quarto, onde Maria roncava, a fim de não fazer barulho, deitou-se e dormiu como um anjo, sonhando com a namorada e com o pinto ardendo, de tão esfolado.
No domingo cedo, Maria quer porque quer ir com a mãe pra missa.
- Izé, vão pra igreja pramodi ovi missa!
O Zé, mal tem tempo de tirar a remela do olho e pisa fundo no acelerador do possante que sai trepidante estrada esburacada a fora. Mulher na frente, sogra atrás. Foi aí que Zé do Zóio viu, num relance, com o olho que olhava escanteado, o sapato vermelho de mulher, aparecer debaixo do banco da Maria. O homem teve batedeira, ficou branco, roxo e vermelho e começou a suar frio. O pensamento indeciso e confuso impedia-o de achar uma saída. Remoia as idéias na cabeça e nada. Até que viu o cachaço, dos mais bem nutridos, à beira da estrada, cheirando as coisas de umas marroas e não teve dúvida.
- Muiés! Óiem o cachaço do cumpade Belarmino... que belezura!...
Foi a deixa. Enquanto Maria e sogra olhavam pro lado da porcada, o Zé pegou o sapato que achava ser testemunha da sua noite de orgia, e, feito um raio, pinchou-o no mato, riso maroto e suspiro aliviado. Ao chegarem à igreja, todo cerimonioso, abre a porta pra Maria descer e vão subindo a escada. Como a sogra não os acompanhava, param e ficam esperando, esperando...até que não deu mais. Zé perde a paciência, não agüenta e grita pra velha:
- Ô dona Ermê, anda digero! Sinhora vai ficaí? Vem pa dem da igreja!
A velha, vermelha, afobada, abafada, suando e em posição incômoda, quase de quatro, ainda dentro do carro, responde, com um sapato vermelho na mão:
- Ó, Izé, péra um cadiquim, home! Tô percurano meu otro sapato e num há meio de achá o trem, sô!

11/09/2008

Apareceu Emprego no Sertão


Lá nas entranhas de Tabuí tem uma serra. Serra do Urubu. No pé da serra, um rio, o Sorongo. Ladeando o Sorongo, a estrada de ferro. Bem antes da ponte, a estaçãozinha que desmoronou. Restou o desvio, com as alavancas e trilhos enferrujados. Entre as duas, - estaçãozinha e ponte -, o corte, com um barranco de uns 30 metros e lá vai pedrada. Lá de cima do barranco, Totonho aprecia o movimento dos trens que passam rápido, 20 a 30 km por hora, no máximo uma vez por dia. Totonho não perde um. Ouve o ronco do bicho, tá lá ele, em cima do barranco, dicocado, fazendo pitinho, vendo o trem passar.
Turma da estrada de ferro resolve colocar Totonho pra cuidar do que restou da velha estação. Foram fazer teste com o velho.
- Totonho, se a ponte do Sorongo cair e o trem tá vindo, o que o senhor faz?
- Vô ali e mudo a chave da lavanca do desvio pro trem mudá de rumo e pará, uai!
- E se a chave estiver estragada?
- Aí arranjo um pano vermeio, vô pra riba da linha e fico banano. Aí o maquinista me vê e pára o trem!
- Mas, Totonho, e se o maquinista não o vir, se estiver cochilando?
- Aí acho que é mais mió eu tê sempre um apito, quinem desses de juiz de futebol, e apitá até o trem pará...
Totonho foi ficando agoniado com tanto perguntamento. Doido pra garantir o emprego e ganhar uns trocados.
- Mas, Totonho, e se o trem vier à noite?
- Aí só tem um jeito: eu acendo uma fogueira pro maquinista me vê e grito e pulo até ele pará o trem!...
- Mas, fogueira, Totonho!? E se estiver chovendo?
- Aí, meu Deus!... Aí o recurso é eu tê tamém uma lanterna e fazê pisca-pisca pro maquinista, uai!...
- Tudo bem, Totonho! Suponhamos agora que você tem a lanterna mas não tem pilha?... O que você faz?
Totonho entregou os pontos. Desanimou de ganhar o emprego.
- Óia, meu amigo, aí não tem jeito não! É muita disgraça prum cristão só. Aí eu chamo a Cota!
- Chama a cota? Que cota, Totonho?
- Óia, moço, Cota é minha muié. Chamo ela, a gente vai pra riba do barranco, acendo meu pitinho e vamo oiá e escuitá o trem disgringolá e virá pedaceira, todo espatifado, dentro do Sorongo!...